Aviso aos navegantes

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Pensei em várias maneiras de começar este post

Chegou a me passar pela cabeça palavras bem formais do tipo:

“Comunico que esta página entrará em recesso…”

Todavia, meus leitores entendem a economia de vocábulos para explicar minha ausência nestas férias antecipadas.

Gente, vou ali  ser feliz e já volto! Bjo, me liga! (inferência clara à dona Suellen)

 

P.S.: “A saudade é o sentimento mais urgente que existe.”

Publicado em: on Dezembro 4, 2008 at 2:27 pm Comentários (1)

Respondendo Raquel…

 

O texto que posto algumas linhas abaixo não é meu, o único do blog que não é da minha autoria. São palavras escritas pelo meu conterrâneo Marcelo Canellas, que costuma retratar em séries de reportagens a injustiça social, não preciso dizer que sou fã dele!

 

 

 

 No fundo, acho que todos os bons jornalistas são primados por este sentimento de responsabilidade social, como reza a lenda, a maioria deles é inveteradamente de esquerda. Entretanto, isto só entrou em pauta porque esta semana fui questionada a respeito das minhas expectativas profissionais e o que me levou ao jornalismo por uma vestibulanda que se disse minha leitora desde os tempos da Tribuna (confesso a lisonja).

 

 

 

Olha, Raquel, acho que no fundo é isto: sempre tive afinidade com as palavras, escrever pra mim é um ato tão natural quanto respirar, sou uma leitora voraz (ok, mas por isso eu teria simplesmente terminado a faculdade de Letras) e o mais importante: sempre gostei de pessoas, de pessoas de verdade, não de gente fútil, não de gente capaz de dar muita grana para o cachorro no pet shop e incapaz de mandar um jogo de toalhas aos desabrigados da enchente em SC.

 

Gosto de gente, gosto de vida, gosto de fazer a minha parte. Creio que seja importante fazer um trabalho social voluntário, doar umas roupas pelo menos uma vez por ano contudo, acho que não é o suficiente. Quando resolvi fazer Jornalismo, foi porque eu tinha um sonho, o mesmo sonho que conservo até hoje, o de denunciar injustiça social, de conscientizar as pessoas.

 

 Sou, essencialmente, uma repórter de polícia (e pode chamar de porta dos fundos do jornalismo, não me importo, é o que me move e faz me sentir viva) eu gosto de realidade, Raquel, gosto de presídio, de delegacia, de cobrir assalto, tráfico, furto, mas antes de tudo, eu gosto de falar sobre as causas.

 

 De esquerda? –Talvez. Acredito que um traficante seja tão vítima duma sociedade desigual quanto a mãe que teve o filho morto por uma bala perdida. Acredito que as pessoas não nascem más, todavia, sendo tratadas sempre duma maneira indigna da condição humana por uma sociedade que as subjuga elas podem não ter o nosso mesmo juízo de valor (nosso, de quem teve oportunidade). Desde que comecei a sair da minha redoma de educação burguesa, descobri que todos merecemos respeito, dignidade e oportunidade, é isso que guia a minha vocação.

 

 

 

Não faço Jornalismo porque , como a maioria dos meus colegas, sou uma “modelo-atriz-cantora” frustrada e vejo nele uma porta para uma emissora, entrei por paixão e por idealismo.

 

 

 

Acredito piamente -e talvez seja esta a minha maior ingenuidade- que dá pra salvar o mundo se cada um fizer a sua parte. Não acredito em discursos, acredito em consciência e informação. As vezes acredito em sensacionalismo porque o caos da vida diária nos tornou inertes e em alguns momentos conseguimos assistir a cenas dantescas em telejornais e continuar jantando como se nada tivesse acontecido. O inferno é a nossa normalidade.

 

 

 

Num momento delicado como este, a sensação que tenho é de incapacidade, plagiando uma professora de uma sensibilidade incrível “nada do que façamos será o ideal”, mas cada um deve colaborar com a sua parte; a minha, quero que seja esta.

 

 

 

Entrei no Jornalismo não porque queira fazer coluna social, nem cobrir esporte, nem festa de inauguração, embora tenha de fazê-lo em alguns momentos. Entrei porque acredito que veicular a informação duma forma correta (mostrando os dois lados, o das nossas autoridades omissas e o dos que sofrem todo o tipo de discriminação) possa conscientizar as pessoas e levá-las a uma mudança de postura no que tange a situação dos menos favorecidos (odeio esta expressão!). Sonho com o dia em que alguém vai ler uma das minhas matérias e vai levantar a bunda do sofá, parar de reclamar dos políticos corruptos e fazer a sua parte, doando não o que não usa mais mas o que ainda poderia usar ou passando não o tempo ocioso ministrando uma oficina profissionalizante numa zona carente mas adaptando um cronograma pra isso que lhe tome tempo hábil. Ou quem sabe, que em vez de reclamar do político, pelo menos se lembre em quem votou e vá cobrar prestação de contas do mesmo.

 

Mas acima de tudo, continuo no jornalismo porque acredito que

 

 todos somos iguais, é tudo uma questão de oportunidade. (De presente pra você, Marcelo Canellas, se esta também for a sua paixão)

 

 

 

Sujem os sapatos

 

Sou um repórter de sapatos sujos. Não é que eu seja desleixado. É que ando muito, e há muitos anos. Por isso, trago, na poeira da sola, muitos brasis. Aprendi que este país é um e tantos. Cada lugarejo é uma nação. Nosso milagre é nossa delícia: fizemos dessa miscelânea uma unidade, a ponto de nos identificarmos como brasileiros. Já vi de tudo, mas nunca o bastante, sempre há com que se espantar. Ouvi inúmeros lados, como manda a prudência. Mas escolhi alguns, como exige a consciência.

 

Sujar os sapatos com o pó da estrada, ou com a lama do caminho, ajuda a fazer as melhores escolhas. Algumas vezes, tropecei no engano. A armadilha da aparência está sempre atrás da curva, numa sombra, num regato; onde a gente descansa, cai. Quando levanto, aprendo, fico ainda mais encafifado. De tanto andar, desconfio das cores muito definidas, da água muito limpa, do ar muito puro, do bem muito bem, ou do mal muito mal.

 

Pessoas têm nuances, idéias têm gradações, causas têm contradições. O mundo vem com a casca espessa do logro. Repórter que suja os sapatos encontra ferramentas para descascá-lo. Carpete e ar-condicionado nos dão faca de fio cego. Telefone ajuda, mas não revela o olho, o trejeito, a gatimonha. E assim vou catando os fragmentos da vida para contá-la em sua integridade. Meu negócio é contar aos outros o que vejo. Posso chamar de notícia, de fato, de reportagem; mas, no fundo, é só a vida, nosso bem comum, pois é sempre algo que se compartilha. Não se isola a vida feito um vírus, não se faz da vida uma propriedade particular. Tenho grande antipatia por quem tenta fazer isso usando a força e o poder. Por conseqüência, tenho simpatia pelos fracos, pelos humilhados, pelos pobres. Talvez porque tenha sujado os sapatos o suficiente para conhecer a dor alheia.

 

Tento sempre estar ao lado da dor, mas para que ela seja vista e, assim, superada. Se aprendi bem com as solas que gastei caminhando, é para isso que serve o jornalismo. Prestes a completar 20 anos de profissão, decidi fazer esta prestação de contas com o meu ofício. Dou também um único conselho aos estudantes e jovens repórteres que me lêem agora: sujem os sapatos.”

 

 

 

P.S.: Entendeu agora, Raquel, o que eu quis dizer quando falei que quero ter meus sapatos sujos por toda a minha vida?sapato1

Publicado em: on Dezembro 2, 2008 at 11:09 pm Deixe um comentário