Banzo do pampa

chiSempre ouvi falar no tal de banzo -nostalgia mortal dos negros de África, quando ausentes do seu país- nas aulas sobre história da formação do Brasil. Achava uma frescura. Imaginava que não fosse provável alguém morrer de saudade da terra onde nasceu. Hoje, depois de meia década longe do pago, começo a entendê-los.

Não exatamente sinto uma nostalgia mortal mas que ela é muito doída, isso é. Quando vim embora do RS, pensava que não iria sentir falta de nada, afinal, via-me como uma deslocada. Não gostava de chimarrão, tinha enjoado de churrasco, não participava da rivalidade gre-nal e, definitivamente, não compartilhava da ideia do gaúcho ser o povo mais elitizado do Brasil.

 Pois bem, passados alguns anos, após conhecer culturas diferentes de outros cantos do país, venho a concordar com meus conterrâneos: o RS é tudo para um gaúcho. O orgulho da terra onde nascemos é algo que só se vê por lá. Em que outro lugar o povo conhece e canta, de peito estufado, o hino inteiro do estado?

Ouço muita gente falar mal do bairrismo gaúcho, eu mesma já fui uma delas, confesso. Hoje entendo que nosso bairrismo não é ofensivo a outros povos, é simplesmente para exaltar tudo que é nosso. E isso é algo que só nascendo no pago para entender. Só quem sentiu o Minuano soprar de manhãzinha num inverno rigoroso e seco pode entender o que é ser gaúcho.

Sinto falta dos bares gaúchos, onde se ouve MPG. Outra peculiaridade do estado, manter um cenário musical auto-sustentável. Bandas que só a gente conhece como Graforréia, Cascaveletes e  Acústicos e Valvulados.

Quando vim embora, falava mal daquela algazarra de domingo de gre-nal. Hoje, sinto um certo cheiro de coisas conhecidas – como travesseiro e pão com manteiga- quando vejo camiseta do  Grêmio ou do Inter na rua. O churrasco eu tanto condenava porque já tinha-se tornado lugar-comum. Tudo no RS é desculpa para churrasco! Hoje me enche de água na boca quando alguém comenta que vai no aniversário do fulano e vai ser um “churras”, de preferência regado à Polar. Existe churrasco pelas bandas de SC também, lógico, entretanto aqui a carne não é espetada e se usa temperos para mariná-la. Só um gaúcho entende o tamanho desta heresia!

O chimarrão? Bom, o chimarrão eu continuo não tomando por aqui porque não aprendi a fazê-lo embora quando esteja de visita pelo pago, sempre tome com as gurias. E tem mais isto, as gurias. Aquelas mulheres altas, grandes, lindas por natureza, mesmo de cara lavada e ressaca, só tem no RS!

O meu banzo se manifesta quando ouço, quase como forma de tortura, programas de rádio gaúchos, quando leio autores gaúchos, que fazem Porto Alegre parecer o centro cultural do mundo. Fica latente meu banzo quando penso na costela de domingo na brasa pra comer com garfo e faca. Quando penso no chimarrão de fim de tarde, no vento cortante e no sotaque que me parece quase musical. Por tudo isso, começo aqui a contagem regressiva para a minha formatura, quando finalmente, poderei ir embora de SC. A partir de hoje, faltam dois anos e três meses para “picar a mula” como se diz por lá.

E aí o meu leitor pode se questionar: -mas se ela não gosta de lá, por que não vem logo embora? -Simples, se tem uma coisa que o pampa ensina é: não tá morto quem peleia e nem se deixa peleia pela metade. 

Um amigo -que não aguentou mais de dois anos longe do pampa- costumava dizer nas mesas de boteco das quais éramos assíduos freqüentadores, que não há cerveja como a Polar. Não é só a cerveja, Luciano, é a acolhida da gauchada, é a música, os contrastes, a cultura. No RS, a gente está sempre em casa, e nada como voltar para casa.

 

Como arremate, não é bairrismo, é só uma divagação acerca do pampa e nem é minha, esta é do Veríssimo:

“ Se Deus levou seis dias pra fazer o mundo, só o RS foram cinco!”

Publicado em: on Março 27, 2009 at 9:45 pm Comentários (2)

Uma revolução silenciosa

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Sabe aquela história de que as melhores essências estão nos menores frascos? Pois é, caiu por terra ou só vale mesmo para perfume. Se bem que tenho lá minhas dúvidas. Tem muito perfume em frasco de 60 ml desbancando os consagrados bálsamos vendidos a preço de ouro em pó. Mas aonde realmente quero chegar é numa frase da minha mãe: “Mulher grande é que é mulher bonita.”

Jamais imaginei a dona Neca algum dia concordando com essa minha teoria polêmica. Neste verão tive uma grata surpresa. Ao ver eu e minha irmã arrumadas para sair exclamou: -“Graças a Deus, tive filhas grandes! Coisa feia mulher pequena!” E nós lá, do alto de bem mais de 1,70m mais os saltos, com aquela estrutura óssea de madonas italianas nos sentimos quase como um sacerdote a converter um ateu. Logo a mãe, que sempre lutou para ser esquálida – e por muitos anos o foi, violentando o próprio biotipo- elogiar nosso porte…os tempos mudam.

O padrão de beleza finalmente deixa de observar a passarela e volta o olhar para as páginas de revistas masculinas. Recheadas de modelos voluptuosas, seios fartos, coxas, bumbum, panturrilhas avantajadas, fazem as mulheres normais, não-anoréxicas, se sintam lindas dentro de seus jeans 40, 42 e 44.

          De uns anos pra cá, a ditadura do manequim 36/38 vem caindo. Anorexia e bulimia, em breve, só farão parte de editoria de polícia.

A partir do fim dos anos 90, a saúde entrou na moda. Em Santa Catarina mesmo, modelos com IMC abaixo de 20 não podem desfilar. São as mortais sendo vingadas! Temos de agradecer às precursoras do movimento em prol das gostosas. E agora só se leve em conta os corpos das beldades- Carla Peres, Sheila Mello, Joana Prado, Kelly Key e, mais recentemente,  Mulher Melancia e a Priscila do BBB.

Foram todas importantes para mudar um pouco o padrão de beleza midiático. Passamos por uma revolução silenciosa. No mais, sempre achei que este padrão imposto pela indústria da moda não é exatamente o predileto dos homens (heteros). Afinal, quem são os homens que escolhem as modelos para desfilarem nas passarelas das semanas de moda pelo mundo? –Os estilistas. E estilistas, em sua esmagadora maioria, são o quê? –Exato, gays. E gay lá gosta de mulher? –Só as ingênuas acreditariam nisso. Eles, na verdade, morrem de inveja delas.

Portanto, viva à Playboy, abaixo aos editoriais de moda!

Publicado em: on Março 12, 2009 at 12:07 am Comentários (1)

um verão que vai deixar saudades…

follow_the_leader_2_bNa primeira vez que a vi, estava de cabelos presos –o que não os deixava tão bonitos- e um vestido com listras diagonais que não a favoreciam. Ela me achou metida. Achei-a provinciana e sem charme.

Ainda lembro da regata branca que vestia na segunda vez que nos vimos. Lembro dos cabelos soltos e longos, a cascata dourada que pendia do alto de seu quase 1,80 m. Não havia como não vê-la, era, sem dúvida, a mais bonita do lugar aquela noite.

Fui descobrindo aos poucos que ela não era só bonita, era autêntica e de uma alegria incontrolável. Seu jeito provinciano acabou por ser mais um dos seus encantos… e por tornar o interior o lugar mais interessante do mundo pra mim naquele verão.

Eu não sabia exatamente  o que a diferenciava tanto, sabia que ela era única. È única quando canta alto( e errando a letra muitas vezes!) no meio do bar lotado. É única quando ri-já alta de tanta cerveja- e suas bochechas ficam rosadas. Única quando partilha comentários maldosos ou, pelo menos bem mal-intencionados…Bandida!

E foi assim, partilhando taças de cerveja e histórias de bar que ela se tornou doce, foi ficando menos provinciana pra mim. E eu, menos metida pra ela. Hoje não imagino uma festa sem ela, um boteco sem ela e ainda menos crises de riso longe dela.

É a personificação de toda a alegria que já presenciei tão perto. Se pudesse, aliás, içaria-a para mais perto, para sempre perto.  

Dizem que amigos nos são estimados não exatamente pelo que são mas pelo que somos quando estamos com eles.

Eu sou mais feliz quando perto dela, mais risonha, mais divertida…eu sou muito mais Angélica e gosto infinitamente mais de mim.

 

 

Publicado em: on Março 4, 2009 at 10:14 pm Comentários (1)