Dormir de conchinha

 

rho_and_mia_bFazer sexo não é um privilégio nosso, qualquer animal transa. É instintivo. Dormir de conchinha é uma característica específica humana. Ok, você terminou a noite com o cara mais lindo da balada, ele era muito bom de cama. Até aí você está achando que ganhou na mega-sena sozinha e acumulada. Quando acabou a performance do seu Apolo, o moço simplesmente virou para o lado oposto ao seu e cochilou. Ou pior, perguntou se foi bom pra você.

Você namora há algum tempo, o sexo é bom embora não seja mais repleto de novidades. Vocês combinam, se entendem, têm carinho um pelo outro. O antes é ótimo, o durante é realmente muito bom mas o depois deixa a desejar. Vocês não conseguem dormir de conchinha. Você acorda com torcicolo, o braço dele formiga. Não é falta  de amor, é incompatibilidade anatômica mesmo.

Eis que um belo dia ou uma bela noite você fisga um cara interessante encostado na bancada dum certo bar que toca as músicas da sua adolescência. Acha ele charmoso, a atração é mútua e você, que não é mais uma menininha resolve ir para a casa dele. Pronto, momento perfeito, esqueça os tabus! Você se surpreende com o antes, absolutamente incrível para a pouca intimidade que vocês têm. O durante, bem , o durante não é necessário comentar. Ele tem não apenas aqueles olhos de gato mas um fôlego felino. Depois de alguns orgasmos você já está exausta e não espera mais nada da “descoberta do ano”.

É neste ponto que ele a surpreende mais uma vez. Existe um depois. Sim, ele tem o sorriso mais lindo do universo, um cheiro irresistível no cabelo encaracolado e na pele absolutamente alva, a carne branca te lembrando pêssegos. Ele vai se chegando por trás e manuseia seu corpo como poucas vezes o fora. Quebra a maior de suas resistências, a sua mais alta barreira: sim, ele dorme de conchinha com você.

Logo você que acordava com a coluna parecendo um 8 quando seu namorado tentava envolvê-la neste ato romântico. Alguma coisa está errada, você pensa. É simplesmente uma transa casual, você não tem a mínima intenção de se apaixonar entretanto começa a se perguntar onde ele estava até agora. Ops, hora de retroceder. Entoa mantras como: “mulher inteligente pega e não se apega” . Mas logo está repassando a noite anterior -maldita conchinha, pensa.

E poderia ser o jeito que passa o braço em cima de você quando estão no cinema. Dormir de conchinha é uma daquelas pequenas humanidades que não me canso de citar. As coisas que tornam alguém único e insubstituível, como o jeito que ele mexe no cabelo ou ajeita os óculos. Aquela carinha que faz quando vai olhar algo distante. Ou o jeito carinhoso que só ele te chama. É o que faz com que nos apaixonemos ou não por alguém. O ponto crucial que faz você querer ele e não outro, o critério de desempate.

 Sobre o cara que dormia de conchinha? –ela não se apaixonou por ele. Também não o esqueceu. Nisso, ele se tornou único…e no cheiro de Xampu.

Publicado em:  on Abril 20, 2009 at 10:19 pm Comentários (3)

Vale a pena apagar uma parte da sua memória?

a_time_to_play_b1Cientistas da Universidade Estadual de Nova Iorque descobriram uma substância capaz de destruir entre os neurônios as conexões responsáveis por uma parte da memória. Ouvi alguém na mesma sala em que eu assistia à reportagem dizer que sim, que valeria a pena apagar partes  que a faziam sofrer.

 

Ok, mesmo achando absurdo alguém, com mais de cinqüenta anos,  ainda não ter aprendido a perdoar e esquecer certas coisas, me pergunto se nossa memória não é parte importante do que somos. Parto do pressuposto que se nós somos o que somos é porque vivemos coisas que nos marcaram assim.

 

É impossível alguém trazer tantas lembranças ruins que interfiram nas boas. Lógico, lembranças dolorosas como presenciar um assassinato ou ser vítima de estupro merecem mesmo ser exterminadas de nossa cabeça, nem que seja cirurgicamente. Mas uma briga, um amor que te abandonou, um amigo que te traiu ou os erro dos seus pais são coisas que fazem parte de quem você é.

 

Somos uma soma de cada lágrima que rolou, de cada despedida, cada traição que nos deixou mais esperta ou briga que nos fez mais fortes. Somos adultos para entender que nossos pais não sabiam tudo, afinal, passamos por esta experiência -ou vamos passar- e notamos que um pai nasce junto com um filho.  Não foram as vezes que puxaram nosso tapete a mudarem nosso rumo, entretanto precisamos da lembrança da queda para buscarmos forças e nos levantarmos 20 mil vezes se for necessário.

 

O passado, quando sabemos lidar com ele, serve para nos impulsionar numa situação futura. E lidar com o passado, com as más lembranças, nada mais é do que crescer, descobrir o quanto se tem valor diante do mundo. Desvelar nossas forças. Lidar com o passado não é recordá-lo todos os dias, toda hora, pensar no quanto fomos infelizes em determinada situação ou se colocar pra sempre numa posição de vítima. Lidar com o passado é tê-lo num cantinho, numa gaveta, que fica grande parte do tempo fechada e só é aberta quando buscamos um exemplo. Ou quando a gente pergunta baixinho a si mesmo: “será que eu vou conseguir?”

 

Apagar a memória! Você apagaria da memória o cara que te deixou por outra? Sim? E as noites incríveis que vocês passaram juntos? Elas iriam também. Você apagaria a sua mãe da sua memória só porque em determinado período ela foi sua algoz? Mas e as vezes em que ela te pôs no colo e te consolou quando o mundo parecia contra você? Não, né?

 

Tudo tem dois lados, não adianta. É uma constante universal. Você pode chorar, espernear, tentar construir um conto de fadas em cor-de-rosa porém, em algum momento seu castelo-inteiro ou só em parte- vai desmoronar.  E cabe a você reconstruí-lo, agora com vista para o mar. Quanto ao castelo que caiu, você não precisa apagá-lo. Use seus alicerces. Afinal, você gastou tempo da sua vida para construí-lo.

 

Tem coisas das quais não adianta fugir, e uma delas é de que somos feitos das experiências que vivenciamos. E se somos bons hoje, se somos felizes, é porque tudo aconteceu na medida certa. O abandono do cara que você amava era necessário, as brigas com seus parentes, os empregos que perdeu, os vestibulares em que não passou, a bomba de escola, cada lágrima derramada, cada momento de desespero, cada fundo de poço…tudo isso é você. Além do mais, não foi nada disso que realmente mudou a sua vida.

 

O que mudou seu rumo foi o vestibular em que você passou. O apoio que seus pais te deram, quando você precisou. O abraço da sua irmã quando você voltou de viagem. O emprego que você conseguiu. O cara que te quis e te amou como ninguém. Os amigos que ficaram do seu lado e os elogios que recebeu. O resto? O resto é história e também faz parte mas, creia, não muda.

Publicado em:  on Abril 17, 2009 at 1:19 am Comentários (2)