vai passar…

[trecho de correspondência] 

Dessa história toda, eu levo um negócio: não vou deixar de me entregar nem de acreditar em ninguém porque você foi imbecil comigo. Não prometo o que não cumpro a mim mesma. Vou confiar sim, vou me entregar de novo, de novo e de novo porque se apaixonar é sempre bom. Porque a gente fica melhor quando ama. E porque quando me apaixonei por você, me apaixonei de novo por mim. [...]. Renovei todo o meu guarda-roupa, para exorcizar uma fase anterior da minha vida. Me acostumei a ir ao cabeleireiro toda semana, dei um passo rumo à reconciliação com meu pai, parei de relevar algumas coisas… Me tornei uma pessoa melhor porque te amei. Mesmo que eu tenha amado uma fraude. Porque nem de blefe eu te chamaria. Falta-te classe.

         No fim das contas, a única pessoa que perdeu foi você. Eu, bem, eu só ganhei. Fiquei feliz de novo e retomei meus antigos amigos. Pus minha vida em ordem. Porque eu estava feliz, as coisas começaram a acontecer. O emprego apareceu, o apartamento, tudo no seu lugar. Eu não me arrependo. Estou ótima, estruturada o suficiente para agüentar ver o castelinho que eu tinha construído em cima de você desmoronar. Se não tivesse te amado, eu ainda estaria enxergando a vida em preto e branco.

         Foi você quem perdeu, querido. Perdeu alguém que teve coragem o suficiente para mudar tudo por você. E não perdeu só a minha coragem ou a minha pouca cerimônia. Perdeu meu humor sagaz, minha companhia de madrugadas. Perdeu nosso sexo “Cirque Du Soleil”. Perdeu tudo que um dia eu vim a sentir por ti. Não sobrou nada. Nem ódio, nem amor. Nada. Só a impressão de que mereço explicação. Para eu saber desde quando me engana, e em que momentos minha intuição falhou. Foi cruel comigo o que  fez. Muito cruel. Mas tu sabe que eu agüento o tranco. Sou feita de uma matéria muito firme. Eu sempre me refaço.

         Hoje eu vou chorar meu luto. Porque sei que alguma coisa morreu dentro de mim. “Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente.” [marthinha]

                          Então, só por hoje, vou derramar todas as minhas lágrimas. Vou chegar ao fundo da minha dor. Vou vivê-la toda. E sofrê-la intensamente. Porque me sinto enganada, traída, e morta, de certa forma.

                           Mas amanhã, porque sempre há um amanhã, eu vou aproveitar o sol, ter um bom dia. Vou aproveitar meu segundo dia de academia [que você tanto insistiu que eu frequentasse], vou trabalhar [no emprego que tanto quis que eu arrumasse], vou tomar suco com meus amigos [dei um tempo na bebida, já que você tanto insistiu]. E, finalmente, estreiarei o vestido preto [que comprei pensando em vc]. E quem sabe, numa curva do caminho, na academia, no restaurante, na livraria, ou no mercado escolhendo peras, eu encontre o príncipe encantado… afinal, você me preparou para ele.

                          Uma pena que seus olhos não tenham sido capazes de enxergar o quão bem as mentiras que me contou me fizeram. Eu teria te amado por um bom tempo. Porque além de te amar, sentia gratidão por ti. Eu via o quanto o teu ponto de vista, de um cara [supostamente] bom-caráter podia me melhorar, e já o estava fazendo. Passou o tempo, o caráter evaporou mas eu fiquei. Mais linda do que nunca. Firme. Em pé. 

                                  Eu não vou dizer que você é igual a todos os homens. Jamais fui uma mulher de clichês. E também, não conheço todos os homens. Mas posso afirmar: você é um escroque. Reles, pífio, medíocre. Você pensa que ser cretino é uma novidade. Quando na verdade, é um truque mais velho que o mundo. Criar ilusões. Criar uma personalidade que não existe. Criar alguém melhor do que você jamais irá ser.

         Seria mais novo amar alguém de verdade, apesar dos seus defeitos, apesar de todas as diferenças de vocês. Aprender com ela e ensiná-la também. Superarem, juntos, todas as barreiras que a vida sempre impõe aos que se amam. Dançarem o destino, fazerem-se parceiros. Amar o mau humor dela quando faminta, ou o jeito que morde os lábios quando tomada de lascívia. Deixar que ela amasse seu jeito tolo de cantar músicas de desenho animado ou o seu cabelo [sempre] desgrenhado.

         Me perguntei, nas últimas horas, em meio ao pranto, quem realmente amei. Quem era você? E só agora percebi:  não importa quem eu tenha amado. Só importa que eu tenha sido suficientemente grande para amar. Eu fui maior que tudo isso. Maior do que você e suas mentiras. Porque eu amei. Ainda que não tenha sido amada. Eu amei e isso me fez melhor. Me fez flutuar, escrever, sorrir. Eu vivi a nossa história, embora, nesse exato instante, eu saiba que foi só minha.

         Você viveu? Você saiu da sua casca e viveu alguma coisa? Porque eu sempre vivi tudo, até a última gota. Eu sangrei; eu chorei; eu sofri; eu amei; eu parti corações…mas eu vivi. Enquanto você contará vantagem para seus amigos sobre suas mentiras e o quanto é bom porque sabe enganar, eu terei uma história de amor [cheia de tentativas] para contar aos meus netos, um dia. É tudo uma questão de ponto de vista. Exatamente isso me faz melhor que você. Eu não me economizo. Viver é entregar-se.

                                                                                                                      Adeus.

P.S.: Freud explica o fato de você sempre achar que eu queria ferrá-lo ou brincar com seus sentimentos [se é que os tinha]. Você estava se protegendo das suas próprias atitudes. Não, meu bem, eu não sou você. Eu sou melhor. O melhor que você poderia ter…e perdeu.

Publicado em:  on Novembro 29, 2009 at 6:35 am Comentários (1)
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Aprendendo a desistir

Confesso, já fui mais perseverante. Talvez eu ainda não fosse tão sedutora. Se eu queria um determinado cara, poderiam se passar anos, eu continuava a querê-lo, até o momento de atingir meu objetivo com o mesmo. Fosse um remember, um beijo, um pedido de namoro ou só desfilar com o moço na frente das minhas amigas, eu esperava o tempo que se fizesse necessário contudo eu [quase sempre] conseguia.

                            O problema surgia quando concretizava o desejo, eu os havia desejado tanto que a pessoa já não me tinha ressonâncias humanas, mas oníricas. Eu não estava beijando o Pedro, o João, o Adalberto, eu beijava as construções do meu imaginário. E, fatalmente, depois dos lábios se desgrudarem e os olhos se abrirem, eram apenas o Pedro, o João e o Adalberto. Nada de mágico. Nem sininhos tocando, nenhum sinal dos céus, nem mesmo algum traço do super-homem que habitava meus sonhos. Eles não voavam, não recitavam algum trecho de uma tragédia grega num momento oportuno, nem mesmo sabiam se vestir na maioria das vezes.

                             Há pouco concedi a mim mesma o direito de desistir. Descobri que também pode ser uma arte. Desistir de um relacionamento que não me soe futuro; de um sapato, que apesar de lindo, tem um péssimo cômodo; desistir de uma amizade importantíssima por um ano mas pelos últimos cinco, um porre. Desistir de um emprego que me esfole viva e me pague pouco. Desistir de tudo aquilo que não precisava senão para me provar ser uma mulher de palavra, das que vai até o fim. Só me pergunto se até o fim da história ou dos meus nervos.

                                Foi com menos pesar do que imaginava, há uma hora excluí os seus contatos. Antes de fazê-lo vítima dessa minha imaginação hiperativa fazendo-o parecer um semi-deus. \o futuro disso seria: quando eu finalmente o dobrasse e satisfizesse meu desejo, ele não pareceria mais que um esboço de homem. Fiz um favor a nós dois. Excluí o contato de mensagens instantâneas, de e-mail e os números de telefone. Nada contra você, é só uma maneira de evitar frustrações. Sua porque para conquistar alguém sou uma marketeira digna de ser contratada pelo Roberto Justus. E se por acaso eu não tivesse coragem de dizer que você não era tão bom quanto nos meus sonhos, você descobriris todos os meus defeitos inconfessáveis. E evito também a minha, de notar a perda de tempo desejando alguém que não existe.

                                    Infelizmente, uma pessoa só tem uma chance comigo: a primeira. Não existe volta, remember, retorno, tempo, afastamento, seja o nome que for. Como escreveu Drummond: “o lar não mais existe/ ninguém volta ao que acabou” eu tenho um traço muito forte de vaidade na minha personalidade e ele se manifesta justamente no “eu te quero e vou te ter”…custe o tempo que custar. Enquanto isso namoro, faço festa, emagreço, engordo, desboto, me bronzeio, descubro mais uns truques de maquiagem e espero que você mude de idéia.

                                           Só tem um detalhezinho que muda o quadro: oi, eu tenho 25 anos, a minha beleza não vai durar pra sempre, estou quase me formando, já fui noiva e tenho ambições de construir um relacionamento com alguém. E mesmo que não o construa, não tenho intenção de ficar mais no modo “stand-by”. Vida que segue, meu bem. Garçom, champanhota para dois nesse momento. Se não teve no início, ok. Hoje, no final, merecemos duas taças borbulhantes. Um brinde ao momento oportuno de parar!

                                               Discordo do Carpinejar, segundo o poeta, uma faísca atrasada ainda é capaz de incendiar uma floresta inteira. Será? Se ela se atrasou, a chuva [ou o bom-senso] chegaram antes dela. Eu fiz o que estava ao meu alcance para tentar de verdade. Não deu. Que ótimo! Não te espero logo ali na frente, na próxima curva ou crise de carência. Não espero que você mude de atitude ou de idéia. Não espero que encontre tempo ou vontade de vir ao meu encontro. Não espero. Não atropelo. Só não desejo querê-lo por vaidade, perderia todo o encanto.

                                       Das coisas que continuo desejando, com toda a minha alma, não desisto do meu diploma de jornalista, de escrever um livro, de viajar pelo mundo, de alguns poucos amigos, da minha irmã e de me sentir amada.

 

P.S. ao ex-noivo: se eu nunca disse, obrigada, sem você eu jamais saberia o que é ser amada, enxergada. Você me tirou do canto, onde eu tentava me esconder e me defender do mundo e me pôs no centro do salão. Você quis casar comigo, viajar comigo, passear comigo, dançar comigo. E quando acabou, ainda me deixou no centro. Devo a nós dois continuar lá. Estonteante. Firme. Até encontrar um outro par disposto a dançar na pista e no meu ritmo.

Publicado em:  on Novembro 21, 2009 at 4:43 am Comentários (2)
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Geisy Arruda e minha mãe

geisyUm dos meus maiores motivos de discussão com a minha mãe sempre foi seu machismo exacerbado. Diante de tantos comentários a respeito do vestido rosa-shocking da moça da Uniban essa semana, lembrei de algumas pérolas proferidas pela dona Neca ao longo das duas décadas em que dividimos o mesmo teto. Minha mãe, até hoje, adora dizer: -“Sim, usa uma saia desse tamanho e depois ainda vai querer reclamar se for estuprada.”

                        Passei anos da minha vida me desgastando tentando convencê-la do quão retrógradas eram suas opiniões e nada mudou. Nem mesmo quando minha irmã sofreu uma tentativa de estupro, minha mãe aliviou. Lembro dela me recriminar porque levei a caçula à delegacia prestar queixa. Segundo ela, era uma história que deveria ser mantida em sigilo, não se devia dar maiores dimensões ao “incidente”. E por séculos a fio, desde a Idade Média, em que uma mulher não era mais que uma propriedade do homem, agimos assim. Caladas mesmo que ultrajadas na nossa condição de mulher.

                          Não quero discutir aqui se o traje da Geisy era ou não adequado ao ambiente. Se não o fosse, que tivesse sido barrada na entrada da faculdade e pronto. Mas deixemos a hipocrisia de lado. Moro numa cidade de praia e minhas colegas [e admito, eu mesma] em pleno verão usamos saias curtas e shortinhos para assistirmos às aulas. O que não dá o direito de colega nenhum nos xingar ou nos desmoralizar pelos corredores da instituição. Aliás, esse tipo de vexame só acontece porque existem mães demais como a minha soltas por aí.

                              Se algum dia eu tiver filhas, certamente não as ensinarei a manter a classe diante duma construção quando os homens proferem barbaridades que não se escreve ao passarmos em frente. A coragem masculina é muito tênue. Eles só se sentem fortes quando em bando -exatamente como babuínos- para ultrajar uma mulher. E sabem que esta terá como único recurso o silêncio. Ainda que se sinta violada na situação. Foi treinada [domesticada] durante séculos a não reagir. Ser mulher é ter classe, é não descer do salto. A classe nos impõe o silêncio. Pois vou ensinar as minhas filhas que descer do salto se faz necessário em alguns momentos. E aliás, é uma arte.

                              Depois de tanto me sentir humilhada em situações similares, aprendi a dar um bom escândalo. Como diria a Verinha, a gente se sente aliviada depois de dar um escândalo. Renovada. Nada como um bom “gritedo” como se diz no RS. Quer me falar o que quer quando passeio de legging no calçadão da praia? Ok. Vai ouvir o que não quer também. Quer aproveitar uma balada apertada para passar a mão na minha bunda sem minha permissão? Isso, automaticamente, vai selar um acordo entre nós: apertarei seus testículos também -duma maneira nada agradável. Quer gritar “gostosa” em plena Av. Atlântica enquanto eu saio do bar de minissaia? Ok. Aguenta a resposta constrangedora com direito a xingar a sua mãe.

                          Lógico que nenhuma das “medidas-Bruna” resolveriam o caso Geisy. Mas certamente se mais Brunas agissem por aí, talvez os homens não se sentissem numa posição superior à da mulher. Posição esta que lhes confere o “direito divino” de agredir física –ou verbalmente- elas. Os adjetivos “puta”, “vadia” e similares que ecoaram pelos corredores da Uniban foram uma demonstração ridícula de hipocrisia e chauvinismo. Aliás, o argumento prostituição nesse caso também é descabido. Se a guria se prostitui ou não, é irrelevante.

                        Isso me lembra o caso duma menina que trabalhava como garota de programa na minha cidade e um dia levou uma surra dum cliente covarde. Quando ela tentou prestar queixa, os policiais se recusaram a aceitar porque a moça era prostituta. E o que uma coisa tem a ver com a outra? Ela ganhava por sexo, não para ser espancada. Isso quer dizer então que podemos atear fogo no cara porque ele é índio. Espancar uma coitada no ponto de ônibus porque ela é empregada doméstica. Matar a pauladas uns sujeitos que estavam dormindo na calçada porque são mendigos. O fundamento da argumentação é a mesma. O único diferencial é que na questão prostituição trazemos o velho tabu sexual a baile. E quando se fala em sexo, volta-se aos instintos primitivos.

                             Papelão maior foi da faculdade que expulsou a guria sem noção. A medida cabível era advertência por vestimenta inapropriada. Agora, para a galerinha que fez o bafafá todo, bom, pra esses, não tem desculpa, cabem sanções criminais, afinal, incitar estupro não é brincadeirinha de pré-escola. Todo mundo numa faculdade sabe exatamente o que está fazendo. E sabe que estupro é crime de caráter doloso.

Publicado em:  on Novembro 16, 2009 at 2:16 am Deixe um comentário
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Sobre carência e armadilhas

hand_in_hand_bUma amiga que também não teve pai presente fez uma analogia muito interessante este final de semana. Falávamos sobre os tipos de ex por que já passamos e sua justificativa me intrigou. Perguntávamos-nos o que ela via num determinado cara que namorou por mais de ano. Ele não tinha absolutamente nada a ver com ela. Era anti-social, mais velho, nem de longe era simpático. Ela contra-argumentou: -“é carência paterna, amiga. Freud explica.”

                              Ele era anti-social, ok. Mas a buscava na aula. Não gostava de nada do que ela gostava contudo  fazia sanduíches e sucos e os colocava escondido na bolsa dela para que tivesse uma surpresa no intervalo do trabalho. Não era simpático com suas amigas porém passava horas com ela, dispensava-lhe atenção. Não havia um “hoje não vai dar”. Sempre podia. Sempre dava. Mesmo depois dum dia inteiro de trabalho. A qualquer hora valia dirigir até a cidade da moça para vê-la. Foi um escroque quando ela mais precisou, mesmo assim, ele lhe dava atenção.

                               Logo eu, que finalmente me resolvi com a tal carência paterna, admito, também já caí nessas armadilhas. A do buscar na faculdade é a mais clássica. Meu pai jamais me levou ou me buscou na aula. Putz, ver um cara me esperando na frente da minha sala não poderia me deixar mais feliz. Era como ver Deus! O que me importava se o relacionamento não tinha futuro? Ele me buscava na facul. Ou as vezes que chegava na casa dum determinado ficante e via por lá uma coca zero. Eu sabia que era pra mim. Eu sabia que pensava em mim mesmo quando ausente.

                            Ou os presentinhos…ah, os presentinhos! Ele lembra que tu comentou, de modo trivial, o término da tua destaca-texto verde e leva uma no outro dia. Ou te dá um livro que encontrou num sebo por cinco reais só porque um dia mencionou, por cima, que gostaria de lê-lo. Surpresas acabam sempre por comover. Seja as carentes de pai, como eu e essa amiga, ou qualquer mulher.

                           As armadilhas mais engraçadas: ele era um crápula mas me pegou no colo. Outro, apesar de estar prestes a se formar, nunca tinha lido um livro na vida todavia aprendeu todos os números de roupa, sapato, lingerie, minha cor favorita e nunca, jamais errou um presente. Um deles desligava o celular todos os fins de semana entretanto passou meu blazer e ajeitava detalhes nos meus figurinos antes de sairmos.  Outro fulano era um nada na cama contudo cozinhava pra mim. Outro era noivo mas me buscava na facul. E eu só aprendi a dizer não para as migalhas há pouco. Recém é o segundo relacionamento que termino sem intenção do dito-cujo querer uma volta.

                                     Pelo menos agora, depois de tempo passado, eu sei o que quero [e minha amiga também, se bem que ela já conseguiu]: não quero arrebatamentos ou eu te amo no primeiro mês. Quero evolução gradual [não lenta]. Quero que o interesse não diminua nem hostilidade depois de pouco mais de vinte orgasmos. Mas também mereço todas aquelas pequenas lembranças…juntas…numa pessoa só. E sem compensações.

 

                      Trilha sonora? Djavan- Linha do Equador “se eu tivesse mais alma pra dar eu daria…”

Publicado em:  on Novembro 11, 2009 at 2:46 am Comentários (3)
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Feminina. Frágil não.

aaSimone de Beauvoir, filósofa francesa, já afirmou: “Não se nasce mulher, torna-se.” Dei meu último passo rumo à minha transformação e nem notei. Não foi só a descoberta da sombra 3D,  as visitas freqüentes ao salão de beleza ou o cuidado com o estilo das roupas. Discreta e sensual. O jogo de toda mulher irresistível. Dominar os segredos do mundo feminino não é, nem de longe, o mais importante.

                                   Dondoca está completamente out. Perua, então, enjoou faz tempo. A grande sacada de ser uma mulher no milênio em que elas dominam é ter mandado o príncipe encantado encantar em outra freguesia e ser independente. Desde pequenas, ouvimos os contos de fada e os brinquedinhos de menina que confundem feminilidade com dulcilidade. Talvez eu não quisesse ter ganho bonecas. Teria tirado mais proveito de esportes ou jogos educativos. Mas tinha pilhas das queridas. Pelo menos nos bebês de borracha não exageraram. Nunca tive o mínimo talento materno.

                                   Me faltou na infância subir em árvore, andar de bicicleta na rua, o tão sonhado banco imobiliário, ser mais moleque. Contudo, certamente não me faltaram bonecas. Não me faltaram contos de fadas em que a alienada e meiga princesa é salva por um príncipe saído Deus sabe daonde pra lhe dar um beijo e mudar a vida enfadonha da coitada. De quebra, enfiando um “felizes para sempre” na historinha.

                                   Por que um homem terá de salvá-la do seu mundo cruel ou dela mesma? Por que a Cinderela não podia se livrar da madrasta por si só? Por que não uma transformação,um surto ou uma metamorfose como toda mulher passa tantas vezes na vida? Aliás, por que o cavalo branco não era montado por ela? Por que raios essa necessidade estigmatizada de um homem na vida duma mulher? Ela não pode simplesmente gostar dele e curtir sua companhia sem que precise dele? Ou ter de casar e cozinhar pra ele? Ou esperar que ele pague suas contas?

                                  Eu me dei conta disso quando alguém achou incrível eu pagar minhas despesas numa loja de conveniências apesar de acompanhada. Não tem nada de especial nisso, é justo. Um ou outro evento, vá lá. Um primeiro encontro, uma data comemorativa de ambos, ok. Sempre? Abuso quando ambos trabalham. Era sanduíche e suco e era meu. Nada mais natural que eu pagasse.

                                    Não queimaram-se sutiãs nos anos 60 pela tão aclamada emancipação da mulher da condição inferior a dos homens? Adoramos dizer que somos livres de dogmas do mundo medieval que tratava mulher como propriedade. Bradamos que agora decidimos tudo por nós mesmas: com quem andar, a que horas voltar, com quem dormir [ou não dormir e só transar mesmo]. Ou se perpetuaremos ou não a espécie. Então que paguemos nossas contas. Afinal, quem não tem autonomia econômica, não tem autonomia política.

                                                  Confesso, não pensei assim sempre. Até descobrir o prazer da independência. O comprar sem pedir. O pagar o quanto achar que devo por alguma coisa que deseje. Só eu sei o quanto posso ou devo gastar em algo. O não depender de alguém. E creia, foi esse o meu último passo rumo a ser a mulher que sempre quis. Sim, eu pago as minhas despesas. Me dê presentes. Me dê carinho. Me leve o tão prometido café na cama. Não me banque. Quero ser amada, não tutelada. Me faça flutuar. Não me escore.

Publicado em:  on Novembro 3, 2009 at 8:30 pm Comentários (1)
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