Aprendendo a desistir

Confesso, já fui mais perseverante. Talvez eu ainda não fosse tão sedutora. Se eu queria um determinado cara, poderiam se passar anos, eu continuava a querê-lo, até o momento de atingir meu objetivo com o mesmo. Fosse um remember, um beijo, um pedido de namoro ou só desfilar com o moço na frente das minhas amigas, eu esperava o tempo que se fizesse necessário contudo eu [quase sempre] conseguia.

                            O problema surgia quando concretizava o desejo, eu os havia desejado tanto que a pessoa já não me tinha ressonâncias humanas, mas oníricas. Eu não estava beijando o Pedro, o João, o Adalberto, eu beijava as construções do meu imaginário. E, fatalmente, depois dos lábios se desgrudarem e os olhos se abrirem, eram apenas o Pedro, o João e o Adalberto. Nada de mágico. Nem sininhos tocando, nenhum sinal dos céus, nem mesmo algum traço do super-homem que habitava meus sonhos. Eles não voavam, não recitavam algum trecho de uma tragédia grega num momento oportuno, nem mesmo sabiam se vestir na maioria das vezes.

                             Há pouco concedi a mim mesma o direito de desistir. Descobri que também pode ser uma arte. Desistir de um relacionamento que não me soe futuro; de um sapato, que apesar de lindo, tem um péssimo cômodo; desistir de uma amizade importantíssima por um ano mas pelos últimos cinco, um porre. Desistir de um emprego que me esfole viva e me pague pouco. Desistir de tudo aquilo que não precisava senão para me provar ser uma mulher de palavra, das que vai até o fim. Só me pergunto se até o fim da história ou dos meus nervos.

                                Foi com menos pesar do que imaginava, há uma hora excluí os seus contatos. Antes de fazê-lo vítima dessa minha imaginação hiperativa fazendo-o parecer um semi-deus. \o futuro disso seria: quando eu finalmente o dobrasse e satisfizesse meu desejo, ele não pareceria mais que um esboço de homem. Fiz um favor a nós dois. Excluí o contato de mensagens instantâneas, de e-mail e os números de telefone. Nada contra você, é só uma maneira de evitar frustrações. Sua porque para conquistar alguém sou uma marketeira digna de ser contratada pelo Roberto Justus. E se por acaso eu não tivesse coragem de dizer que você não era tão bom quanto nos meus sonhos, você descobriris todos os meus defeitos inconfessáveis. E evito também a minha, de notar a perda de tempo desejando alguém que não existe.

                                    Infelizmente, uma pessoa só tem uma chance comigo: a primeira. Não existe volta, remember, retorno, tempo, afastamento, seja o nome que for. Como escreveu Drummond: “o lar não mais existe/ ninguém volta ao que acabou” eu tenho um traço muito forte de vaidade na minha personalidade e ele se manifesta justamente no “eu te quero e vou te ter”…custe o tempo que custar. Enquanto isso namoro, faço festa, emagreço, engordo, desboto, me bronzeio, descubro mais uns truques de maquiagem e espero que você mude de idéia.

                                           Só tem um detalhezinho que muda o quadro: oi, eu tenho 25 anos, a minha beleza não vai durar pra sempre, estou quase me formando, já fui noiva e tenho ambições de construir um relacionamento com alguém. E mesmo que não o construa, não tenho intenção de ficar mais no modo “stand-by”. Vida que segue, meu bem. Garçom, champanhota para dois nesse momento. Se não teve no início, ok. Hoje, no final, merecemos duas taças borbulhantes. Um brinde ao momento oportuno de parar!

                                               Discordo do Carpinejar, segundo o poeta, uma faísca atrasada ainda é capaz de incendiar uma floresta inteira. Será? Se ela se atrasou, a chuva [ou o bom-senso] chegaram antes dela. Eu fiz o que estava ao meu alcance para tentar de verdade. Não deu. Que ótimo! Não te espero logo ali na frente, na próxima curva ou crise de carência. Não espero que você mude de atitude ou de idéia. Não espero que encontre tempo ou vontade de vir ao meu encontro. Não espero. Não atropelo. Só não desejo querê-lo por vaidade, perderia todo o encanto.

                                       Das coisas que continuo desejando, com toda a minha alma, não desisto do meu diploma de jornalista, de escrever um livro, de viajar pelo mundo, de alguns poucos amigos, da minha irmã e de me sentir amada.

 

P.S. ao ex-noivo: se eu nunca disse, obrigada, sem você eu jamais saberia o que é ser amada, enxergada. Você me tirou do canto, onde eu tentava me esconder e me defender do mundo e me pôs no centro do salão. Você quis casar comigo, viajar comigo, passear comigo, dançar comigo. E quando acabou, ainda me deixou no centro. Devo a nós dois continuar lá. Estonteante. Firme. Até encontrar um outro par disposto a dançar na pista e no meu ritmo.

Publicado em:  on Novembro 21, 2009 at 4:43 am Comentários (2)
Tags: ,

Geisy Arruda e minha mãe

geisyUm dos meus maiores motivos de discussão com a minha mãe sempre foi seu machismo exacerbado. Diante de tantos comentários a respeito do vestido rosa-shocking da moça da Uniban essa semana, lembrei de algumas pérolas proferidas pela dona Neca ao longo das duas décadas em que dividimos o mesmo teto. Minha mãe, até hoje, adora dizer: -“Sim, usa uma saia desse tamanho e depois ainda vai querer reclamar se for estuprada.”

                        Passei anos da minha vida me desgastando tentando convencê-la do quão retrógradas eram suas opiniões e nada mudou. Nem mesmo quando minha irmã sofreu uma tentativa de estupro, minha mãe aliviou. Lembro dela me recriminar porque levei a caçula à delegacia prestar queixa. Segundo ela, era uma história que deveria ser mantida em sigilo, não se devia dar maiores dimensões ao “incidente”. E por séculos a fio, desde a Idade Média, em que uma mulher não era mais que uma propriedade do homem, agimos assim. Caladas mesmo que ultrajadas na nossa condição de mulher.

                          Não quero discutir aqui se o traje da Geisy era ou não adequado ao ambiente. Se não o fosse, que tivesse sido barrada na entrada da faculdade e pronto. Mas deixemos a hipocrisia de lado. Moro numa cidade de praia e minhas colegas [e admito, eu mesma] em pleno verão usamos saias curtas e shortinhos para assistirmos às aulas. O que não dá o direito de colega nenhum nos xingar ou nos desmoralizar pelos corredores da instituição. Aliás, esse tipo de vexame só acontece porque existem mães demais como a minha soltas por aí.

                              Se algum dia eu tiver filhas, certamente não as ensinarei a manter a classe diante duma construção quando os homens proferem barbaridades que não se escreve ao passarmos em frente. A coragem masculina é muito tênue. Eles só se sentem fortes quando em bando -exatamente como babuínos- para ultrajar uma mulher. E sabem que esta terá como único recurso o silêncio. Ainda que se sinta violada na situação. Foi treinada [domesticada] durante séculos a não reagir. Ser mulher é ter classe, é não descer do salto. A classe nos impõe o silêncio. Pois vou ensinar as minhas filhas que descer do salto se faz necessário em alguns momentos. E aliás, é uma arte.

                              Depois de tanto me sentir humilhada em situações similares, aprendi a dar um bom escândalo. Como diria a Verinha, a gente se sente aliviada depois de dar um escândalo. Renovada. Nada como um bom “gritedo” como se diz no RS. Quer me falar o que quer quando passeio de legging no calçadão da praia? Ok. Vai ouvir o que não quer também. Quer aproveitar uma balada apertada para passar a mão na minha bunda sem minha permissão? Isso, automaticamente, vai selar um acordo entre nós: apertarei seus testículos também -duma maneira nada agradável. Quer gritar “gostosa” em plena Av. Atlântica enquanto eu saio do bar de minissaia? Ok. Aguenta a resposta constrangedora com direito a xingar a sua mãe.

                          Lógico que nenhuma das “medidas-Bruna” resolveriam o caso Geisy. Mas certamente se mais Brunas agissem por aí, talvez os homens não se sentissem numa posição superior à da mulher. Posição esta que lhes confere o “direito divino” de agredir física –ou verbalmente- elas. Os adjetivos “puta”, “vadia” e similares que ecoaram pelos corredores da Uniban foram uma demonstração ridícula de hipocrisia e chauvinismo. Aliás, o argumento prostituição nesse caso também é descabido. Se a guria se prostitui ou não, é irrelevante.

                        Isso me lembra o caso duma menina que trabalhava como garota de programa na minha cidade e um dia levou uma surra dum cliente covarde. Quando ela tentou prestar queixa, os policiais se recusaram a aceitar porque a moça era prostituta. E o que uma coisa tem a ver com a outra? Ela ganhava por sexo, não para ser espancada. Isso quer dizer então que podemos atear fogo no cara porque ele é índio. Espancar uma coitada no ponto de ônibus porque ela é empregada doméstica. Matar a pauladas uns sujeitos que estavam dormindo na calçada porque são mendigos. O fundamento da argumentação é a mesma. O único diferencial é que na questão prostituição trazemos o velho tabu sexual a baile. E quando se fala em sexo, volta-se aos instintos primitivos.

                             Papelão maior foi da faculdade que expulsou a guria sem noção. A medida cabível era advertência por vestimenta inapropriada. Agora, para a galerinha que fez o bafafá todo, bom, pra esses, não tem desculpa, cabem sanções criminais, afinal, incitar estupro não é brincadeirinha de pré-escola. Todo mundo numa faculdade sabe exatamente o que está fazendo. E sabe que estupro é crime de caráter doloso.

Publicado em:  on Novembro 16, 2009 at 2:16 am Deixe um comentário
Tags: ,

Pequenos mimos merecidíssimos

maquiagem-personalidade-1Sexta-feira ouvi, acidamente, um comentário péssimo a meu respeito. Em meio a uma situação desagradabilíssima, fui chamada de “uma mulher de hábitos caros”. A pessoa em questão referia-se às minhas compras no mercado na semana anterior. Havia-me encontrado na fila do caixa e identificado [indiscretamente] na minha cestinha pão integral light, torradas, patês de salmão rosa, de queijo com salmão e de ervas finas com azeitona roxa. Além, é claro, de uma lata de Capuccino.

                      O comentário me soou recalque do autor mas retificando: não, não sou uma mulher de hábitos caros. Sou sim uma mulher solteira, sozinha, independente. Trabalho oito horas por dia, assisto a aulas mais quatro e passo meu tempo livre lendo, cuidando de questões práticas do dia-a-dia ou num ônibus intermunicipal em direção à faculdade. Fora as noites em claro estudando [bendito capuccino!]. Não tenho filhos. Não tenho com quem me preocupar além de mim mesma. Por isso as regalias com que me presenteio. Sou a pessoa mais importante da minha vida [ah, as vantagens da "single-life"].

                                       Não é luxo não. São pequenos mimos permitidos ainda que com um salário bem longe do dos meus sonhos. Como diria a Ju: regalias fornecidas mesmo “sem um pinto pra dar água”. Não há como comparar minhas compras com as de colegas de trabalho pai de três filhos, esposa assistindo a “vale a pena ver de novo” em casa e prestação de carro para pagar.

                                   Tenho simplesmente de me preocupar comigo e, sobretudo, me recompensar pelo meu dia-a-dia atribulado em que consigo me sair bem em todas as minhas funções. Ótima aluna, boa profissional, dona-de-casa suficientemente zelosa, e ainda acho tempo para ser amante compreensiva, lasciva, bem-humorada. Leitora ávida, escritora em fase de aprendizagem…

                                        Por todos os papéis que desempenho [maquiada e de salto], havia pouca coisa naquela cestinha. Eu mereço Champagne, meu bem. Uma garrafa borbulhante em plena terça-feira enfadonha para me congratular por quem sou. Não sou uma mulher de hábitos caros. Sou simplesmente uma mulher que reconhece o próprio valor.

Publicado em:  on Setembro 21, 2009 at 12:53 am Comentários (1)
Tags: ,

A incerteza e a nuca

         portrait_week_2_b Alguém já escreveu ”o princípio do amor é a incerteza.” A permanência incerta do ser amado nos seus braços. Concordo em parte. O princípio do meu afeto é a incerteza. Mas não sobre você. Sobre mim. Sempre sei quem sou, o que quero e porque quero. Tua presença leva por terra todas as minhas certezas. Não é insegurança. É uma falta de lugar para as mãos, a preocupação se o sorriso não parece tolo, se a unha está desbicada [tormento, sempre está!]…Eu, tão acostumada a dominar as situações. Me perco sob circunstâncias que comandas. E gosto desse perder-me [intriga, instiga, inspira].

 

                   Sobretudo é uma incerteza de porquês. Já não sei exatamente porque escrevo. Começo a ponderar se não o faço apenas para retratar tuas nuances. É público e notório: tenho mais vontade de bater nestas teclas desde que [re]surgiste. Meus olhos e meus sentidos se aguçam para qualquer manifestação tua. Estruturo, mentalmente, textos quando viras de costas pra mim, na cama, e me desvelas tua nuca. Quando sinto a pele do teu dorso tocar meu colo. Tentando descrever teu cheiro [doce e ácido]. As exatas três linhas formadas nas tuas costas e o calor que brota do teu corpo. Confesso, normalmente, enquanto dormes, te observo. [Corre, Bino, é uma cilada!]

 

                 Tenho a péssima mania de dormir logo após “dar corda ao relógio do mundo” e do teu lado, não o faço. Fico sentindo teus batimentos espaçarem-se, tua respiração acalmar até se tornar profunda. Não me incomoda teu sono, toma-me de zelo absoluto. Fotografo, mentalmente, os contornos da tua face à meia-luz. Até que você se vira. A previsibilidade dos teus gestos me aconchega. O conhecer-te cada dia um pouco. Gosto da leveza do teu semblante e o sorriso no canto da boca [carnuda e milimetricamente delineada] nos primeiros minutos em que adormeces. Do cheiro marcante e particular exalado pela tua pele depois da missão cumprida.

           Gosto de você inteiro e de todas as assimetrias. Do teu ritmo. Mas a tua nuca…ah, a tua nuca, quando desnuda, é poesia por si só…

Publicado em:  on Setembro 17, 2009 at 2:19 pm Comentários (1)

Mais uma da série: crescer é tão difícil!

garfield-coffee                 Não é novidade pra ninguém, por mim o expediente começaria às 13h. Eu odeio acordar cedo! Acho humanamente desnecessário. Pior, sou lerda antes do meio-dia. Não consigo fazer coisas básicas. Não é raro eu encontrar hematomas nos braços durante o banho e lembrar que me bati enquanto fazia café. Até meus reflexos se arrastam. Não sou mal-humorada porque nem isso consigo ser. Exigiria esforço. E eu sou um nadinha de manhã.

 

                      Ainda pior que acordar cedo é acordar cedo em dia nublado. Aquele céu sisudo, o cobertor te chamando, a vontade traidora de dormir até o meio-dia…e o celular despertando loucamente a martelar: você precisa ir para a escravi, opa, desculpa, trabalho. Odeio ser adulta às vezes! Saudade do tempo em que o relógio despertava, eu olhava pela janela e se não me agradava do clima, virava para o lado e dormia de novo.[Ok, não havia contas a pagar!] Não à toa, no segundo grau, eu tinha problemas com freqüência. Nunca fui exemplo de nada, todavia, creiam, crianças, não faz nenhuma diferença no pós ensino médio.

 

                        Já fui despedida umas três vezes porque não conseguia chegar no horário. Mas gente, 8h é madrugada! Custa entender? Além do mais, eu sou imprestável antes do meio-dia. Não consigo fazer cálculos básicos. Hoje errei uma soma de 38 dias (coisa simples: 29+9). Não consigo me maquiar [perco a firmeza no pulso]. Nem desenvolver raciocínios complexos [isso na maior parte do tempo]. Desisti de tomar anticoncepcional pela manhã. Sempre esquecia!  Só tem uma coisa que consigo fazer além de dormir. Entretanto acho que não conta porque essa também não precisa sair da cama!

 

                          E hoje é um daqueles dias em que me prostro em frente à tela para enganar o sono. [Mais café, por favor!] Na tentativa de disfarçar meu desejo frustrado: cama. Edredon. Pijama. Escuuuuro. Ainda invento uma maneira de ganhar dinheiro dormindo!

Publicado em:  on Setembro 9, 2009 at 2:04 pm Comentários (1)
Tags: ,

Correspondência para Santa Maria

untitled_0087_b

  Levei muito tempo para concordar com o que me disse enquanto me visitava. “Somos diferentes porque nos completamos. Tu não precisa estar o tempo todo tentando provar ser melhor que eu. Não é uma competição”.

Tenho uma dificuldade terrível para admitir meus erros. Rígida demais. Talvez por isso a dor na coluna, diria meu analista.

Eu tinha esquecido [ou tentado] o quão melhores somos juntas. Contudo,  repassei nossas fotos e percebi: independentemente do que aconteça, sempre seremos uma da outra. Mesmo com a minha estupidez ou a tua cretinice. E até nossos defeitos também são particulares. Cada uma com os seus. 

      Há coisas que só uma extrai[ou enxerga] da outra. Eu vejo o teu brilho. Tu encontra minha inocência. Ainda penso na noite em que tu parou no meio do Pingo pra dizer: -só eu sei o quanto tu amadureceu rápido, mas ainda enxergo a inocência que a pressa te roubou.

Me desculpa, eu errei. Errei quando fui embora e te deixei sozinha. [até nas escolhas certas, existem dois lados]. Tu passou tanto tempo perdida. Confesso, eu também. Nem sei direito se me encontrei já. Ambas perdidas, cada uma reagindo a seu modo. Eu, seguindo em frente e me machucando. Tu, desistindo de tudo. Pedindo para parar o mundo pra tu descer. Fico querendo que tu seja como eu e me esqueço que te amo porque tu é, na verdade, um pedaço de mim. Não um todo.

Isso não é um pedido de desculpas, é um “sinto a tua falta, guria!”. Eu, forte. Tu, doce. Eu, comida. Tu, cigarro. Eu, chapinha. Tu, cabelo molhado. Eu, Cidadão Quem. Tu, Cachorro Grande. Eu, a vó. Tu, a mãe. Eu, intuitiva. Tu, sensível. Eu, palavras escritas. Tu, expressão plástica. Como escreveu Carpinejar “crescemos. Cheias de razão. Cada uma com as suas.” E tudo isso se mistura numa caneca de chá quente no frio do Minuano cortante. Se mistura na hora da confissão. No “cuide bem da sua irmã”.

 

P.S.: até nossos tempos são diferentes. Quando sentir vontade, entra. A casa sempre será tua. Ela jamais deixou de sê-la. Porque eu aprendi, finalmente: o amor não é desespero, é paz. É recompensa.

 Trlha sonora: “duas noites no deserto”- EdHawaii

* antes de qualquer coisa: o uso do pronome “tu” não combina com a flexão do verbo porque, pra quem não sabe, eu sou gaúcha e não fresca.

Publicado em:  on Setembro 2, 2009 at 7:50 pm Comentários (1)

não era o meu objetivo…era minha recompensa…

portrait_week_4_b“ Esse teu olhar apaixonado te redime de qualquer merda que tu tenha feito”…

 

“as vezes, quando tudo dá errado, acontecem coisas maravilhosas que jamais teriam acontecido se tudo tivesse dado certo”.

 

Trilha sonora: “telegrama”- Zeca Baleiro

Publicado em:  on Agosto 28, 2009 at 7:54 pm Comentários (1)
Tags:

E que rolem as lágrimas…

                        hi_key_rho_b   Este ano chorei pouquíssimo. Tive episódios dolorosos que não foram chorados. Se eu contar na mão, sobrarão dedos quantas vezes expus em lágrimas a dor nos últimos tempos. Acho que, de certa maneira, endureci. E não é exatamente um orgulho. também não me envergonha a dureza. Teria vergonha se eu fosse o tipo “ mulherzinha” refugiada no choro pra tudo. Valorizo demais minhas lágrimas. Por isso elas rolam pouco. Rolam bem mais nas minhas alegrias que nas tristezas.

                          Quando meu analista pergunta como me sinto em relação a alguns fatos e enfatiza a necessidade de chorá-los para os expurgar da minha vida, discordo. Quando choro por algo é porque realmente dou valor a isso. Se não chorá-lo, resigno-o à irrelevância. Passou e não mudou meu rumo. Eu fiz o que tinha de fazer e pronto. Nem mais nem menos. Sou a personificação da mulher culpa zero tão aclamada por Martha Medeiros.

                               Concordo, devo chorar um pouco mais mesmo. Tudo para evitar o câncer. Mas prefiro desabafar aqui, na tela branca. Pelo menos, é produtivo. Tenho progredido, segundo meu analista, chorei duas vezes nas últimas semanas. Choro a lá mme. Barievillo: silencioso e a sós. Foi libertador largar. Pôr pra fora. Normalmente, quando o choro vem, eu cerro a mandíbula com força, respiro fundo, e, enquanto faço movimentos circulares entre as sobrancelhas com o dedo indicador, digo em voz alta pra mim: só há duas opções na vida: ser forte ou ser ninguém. E você não veio até aqui pra desabar agora, dona Bruna!

                              Associei o choro à fraqueza. A fraqueza que eu não quero em mim. “Fruta que amadureceu no chão” como escreveu Carpinejar.  

                                      Minha mais nova missão: a esta altura do campeonato, reaprender a chorar. Achar o caminho do meio e dissociar o choro do fracasso. Encará-lo como uma pausa. Difícil ao meu temperamento de quem leva tudo a diante, atropelando o que aparecer pela frente. Sem alguns  pedaços, às vezes, mas sempre chego ao final. Pausa? –Estranho. Vamos tentar.

                         P.S.: que meu analista não me ouça, mas ainda prefiro chorar de alegria. Aquela alegria imensa, que te toma inteira e só pode ser expressa, se além do sorriso imenso, houver olhos marejados! Como quando enxergo minha mãe, depois de meses sem vê-la. Impossível não chorar. Aí  me entrego. Sem ressalvas. Estou em casa.

Publicado em:  on Agosto 25, 2009 at 2:37 am Comentários (1)
Tags:

Que vergonha..agi como um homem!

                 mosaic_portrait_b                 Ontem, forçando-me a sair e a seguir em frente [porque toda mulher inteligente sabe que ficar em casa de galho pensando no passado  atrasa a vida] aceitei tomar chope com um amigo. Ok, até aí tudo bem. Shopping  -odeio!-, mesinha da praça de alimentação, papo vai, papo vem e surgem algumas semelhanças com o dito cujo que tento esquecer. Começa a falar do filho…pqp, tem um filho, é o inferno astral! O filho mora em outra cidade [já começo a procurar a câmera escondida, só pode ser uma pegadinha!].

                                  Ok, mais um chope pra ver eu paro de compará-lo. Banheiro. No banheiro, penso em desculpas para ir embora. Nada me ocorre. Até porque, pensava, se for para casa, vou ficar trancada olhando nossas fotos. Deprê. Mais um chope. Bolinho de bacalhau e surge o silêncio constrangedor. Eu não tinha mais o que falar nem o coitado a me fazer companhia. Ele vai ao banheiro. Demora um pouco. Abro o celular pra ver a hora. Por um acaso daqueles que te fazem mudar o rumo, a tela principal exibe uma foto em que ”o dito” me abraça.

                               Ali se esvai toda minha pouca racionalidade. Começo a imaginar o outro saindo do banheiro e vindo em direção à mesa. Não consigo pensar em outra coisa. Chego a enxergar a maneira como ele caminha, sinto o cheiro, as texturas…ele me toma o pensamento de desejos! Levanto da mesa e caminho em direção à escada rolante. Desci. Fui embora. Fugi. Não sabia como me despedir. Pediria desculpas ao amigo por ele não ser o outro? Melhor a fuga. Agi como um homem.

                              Finalmente entendi porque algumas pessoas simplesmente somem das nossas vidas. Pode parecer cruel com quem fica. Imagino: não deve ter sido legal para o cara-cheio de segundas intenções- se deparar com uma mesa vazia quando voltou. Nessas horas, o clichê “o problema não é você, sou eu” serve como uma luva porém, nem isso se quer ficar para dizer. Você não quer ouvir um “fica mais um pouco, por favor!”. Só ir embora resolve.

 

Ao moço que ficou, me desculpe, eu não faço isso sempre.  Mas foi ótimo.

Publicado em:  on Agosto 23, 2009 at 2:59 pm Comentários (1)
Tags:

Sobre Circos e Bares

circo

Sábado de chuva em BC -aliás, chuva e BC na mesma frase é, no mínimo, redundante. Depois de me rolar na cama o dia todo, resolvi driblar o antibiótico para a garganta e me arriscar no dilúvio. Rumei ao bar mexicano da frente de casa.

Nada de novo até aí, exceto o fato de ter sido acompanhada de mim mesma -naquele momento, não havia companhia melhor! Era mais um dos dias em que a humanidade com um todo me causa enjôo. Pensei em chamar as meninas  mas sua demora para se arrumarem como bonecas já me irritaria. Cogitei os meninos, aí lembrei: quem não foi embora, casou, ou as duas coisas juntas. Então em 5 minutos [mulher atípica!], pus um jeans,  a blusa preta de ombro caído, uma bota, gloss, perfume, peguei as chaves e lá fui eu…reinando absoluta!

Sentei à mesa de costume e fiz o pedido quase rotineiro:  -Stella e Jose Cuervo Blanca.

Enquanto bebia, concentrada em meu “balanço anual” e já quase melancólica pelas perdas- Schali, Lu, Kauan, Poli, vocs me fazem muita falta!- recebi o primeiro drink  com curassau blue. Junto um bilhete e um brindezinho cretino no ar dum indivíduo na mesa da frente. Se eu tivesse com um pouquinho menos de humor, tinha vomitado naquele copo e mandado de volta. Não sei se pelo erro crasso de concordância no papel, pelo péssimo gosto para bebida ou pela ousadia de se dar o direito de interromper meu momento “eu comigo mesma”.

Pelo menos o garçon [amigo] e o infeliz que mandou a bomba azul notaram meu asco pelo gesto. Quando pedi a segunda Stella e a terceira Tequila, pousa na mesa outro drink, desta vez com um guarda-chuvinha [corre, é uma cilada!]. Já estava quase levantando para devolver em mãos e o garçom avisa: -Não, este é do cara da mesa do lado.

Pensei:  Puuuuuutz! Dá pra me deixarem em paz? Tô a fim de ficar na minha, optei por estar aqui ouvindo surf music, bebendo e pensando na minha vida, nos meus caminhos. Será que não tenho este direito? 

Fiz aquela cara de nojo [que me é inerente] e mandei devolver, imagino que tenha entendido a mensagem.  E apesar de toda a minha “postura iron maiden” e  olhar absorto no carinha tocando Donavon, continuava me sentindo desconfortavelmente  observada. Já não conseguia mais me concentrar no “balanço 2008” até que na quarta Stella, o estopim:  um sem noção daqueles com cara de modelo curitibano, jeito de curitibano e arrogância de curitibano resolveu sentar-se à minha mesa. Sim, sem me pedir licença. Sentia-se acima dos outros mortais por ser de Curita, só pode! Foi logo soltando uma “nova como andar pra frente”:

-O que uma mulher tão bonita faz num sábado à noite sentada sozinha num bar? [só faltou a voz de locutor de rádio brega]

Juro, gente, eu tentei! Contei até 10 mentalmente para não ser grossa mas não deu, a sensação de ter sido invadida, violada no meu espaço foi muito grande. Tá, mas vocês querem logo saber como foi o “toco”. Resposta “suave como Dove”: -Olha, quem te disse que estou sozinha?

Ele- estou há mais de 40 minutos te observando e não há ninguém além de você aqui.

Eu- Já te disseram que não está só quem está consigo mesmo?

Ele- Mas eu poderia te fazer companhia.

Eu- Olha, eu pedi mesa pra um porque estava confortável assim.

Ele- Você é jogo duro, hein?Mas não acredito que uma mulher tão bonita tenha saído de casa para ficar sozinha.

Eu- Bom, primeiro que eu não saí de casa, tá vendo ali (apontei) o apartamento com a luz acesa? Eu moro ali, isso definitivamente não é uma saída pra mim, é quase o meu alpendre.

Ele (insistentemente chato!)- Melhor ainda, você mora perto, posso te levar pra casa.

Eu(já com a Stella na mão)- Garçom, anota, tô indo.

Ele (chaaaaaaaaaaaato!)- Ei, peraí, posso te acompanhar? Pelo menos me diz teu nome!

Eu (contando mentalmente até 40, virando e voltando dois passos da porta)- Ok, mas só te digo meu nome se tu acertar uma charada!

Ele- Manda, sou bom nisso!

Eu (falando alto já)- qual é a diferença entre ir a um circo e a um bar desacompanhada?

Ele- Hummmm…no circo você não tem a sorte de me conhecer?

Eu- Exato, no circo, felizmente, os palhaços não falam com a gente.

 

Sim, e saí possessa sob a torrencial chuva, odiando todas a mulheres da face da Terra porque permitem que o machismo se perpetue quando ficam caladas e omissas, numa situação dessas. Odiei a minha mãe naquele momento porque me ensinou a ter classe (por que raios em vez de me ensinar a sentar e cruzar as pernas como uma mocinha, ela não me ensinou a dar um soco?).  Por que, obrigatoriamente, uma mulher desacompanhada tem de estar em busca  de um homem?

Como se homens fossem uma forma de vida superior sem a qual não se vive. Juro, não sou nenhum pouco misógina, entretanto quero  a liberdade de sentar no bar embaixo de casa, beber,  curtir a música e pensar sozinha, sem interrupções masculinas.

Sério, já passei na frente de muita construção de minissaia -e só Deus sabe o que a gente ouve!- contudo, nunca me senti tão desrespeitada na minha condição de mulher . A impressão era de ter sido rebaixada a mero pedaço de carne pendurada –tá, picanha, mas ainda um pedaço de carne- esperando para ser apanhada e devorada. E depois eu é que tenho fama de grossa!

 

P.S.:   Papai Noel, sei que fui uma péssima menina o ano todo, a vida toda, mas como nunca deixo nada no prato, mereço um presente neste Natal: o cilindro de ar comprimido que o serial killer de “Onde os fracos Não têm vez” usa, porém numa versão compacta, que caiba na minha bolsa para eu levar a bares.

 

 

 

Publicado em:  on Novembro 24, 2008 at 6:59 pm Comentários (1)