Confesso, já fui mais perseverante. Talvez eu ainda não fosse tão sedutora. Se eu queria um determinado cara, poderiam se passar anos, eu continuava a querê-lo, até o momento de atingir meu objetivo com o mesmo. Fosse um remember, um beijo, um pedido de namoro ou só desfilar com o moço na frente das minhas amigas, eu esperava o tempo que se fizesse necessário contudo eu [quase sempre] conseguia.
O problema surgia quando concretizava o desejo, eu os havia desejado tanto que a pessoa já não me tinha ressonâncias humanas, mas oníricas. Eu não estava beijando o Pedro, o João, o Adalberto, eu beijava as construções do meu imaginário. E, fatalmente, depois dos lábios se desgrudarem e os olhos se abrirem, eram apenas o Pedro, o João e o Adalberto. Nada de mágico. Nem sininhos tocando, nenhum sinal dos céus, nem mesmo algum traço do super-homem que habitava meus sonhos. Eles não voavam, não recitavam algum trecho de uma tragédia grega num momento oportuno, nem mesmo sabiam se vestir na maioria das vezes.
Há pouco concedi a mim mesma o direito de desistir. Descobri que também pode ser uma arte. Desistir de um relacionamento que não me soe futuro; de um sapato, que apesar de lindo, tem um péssimo cômodo; desistir de uma amizade importantíssima por um ano mas pelos últimos cinco, um porre. Desistir de um emprego que me esfole viva e me pague pouco. Desistir de tudo aquilo que não precisava senão para me provar ser uma mulher de palavra, das que vai até o fim. Só me pergunto se até o fim da história ou dos meus nervos.
Foi com menos pesar do que imaginava, há uma hora excluí os seus contatos. Antes de fazê-lo vítima dessa minha imaginação hiperativa fazendo-o parecer um semi-deus. \o futuro disso seria: quando eu finalmente o dobrasse e satisfizesse meu desejo, ele não pareceria mais que um esboço de homem. Fiz um favor a nós dois. Excluí o contato de mensagens instantâneas, de e-mail e os números de telefone. Nada contra você, é só uma maneira de evitar frustrações. Sua porque para conquistar alguém sou uma marketeira digna de ser contratada pelo Roberto Justus. E se por acaso eu não tivesse coragem de dizer que você não era tão bom quanto nos meus sonhos, você descobriris todos os meus defeitos inconfessáveis. E evito também a minha, de notar a perda de tempo desejando alguém que não existe.
Infelizmente, uma pessoa só tem uma chance comigo: a primeira. Não existe volta, remember, retorno, tempo, afastamento, seja o nome que for. Como escreveu Drummond: “o lar não mais existe/ ninguém volta ao que acabou” eu tenho um traço muito forte de vaidade na minha personalidade e ele se manifesta justamente no “eu te quero e vou te ter”…custe o tempo que custar. Enquanto isso namoro, faço festa, emagreço, engordo, desboto, me bronzeio, descubro mais uns truques de maquiagem e espero que você mude de idéia.
Só tem um detalhezinho que muda o quadro: oi, eu tenho 25 anos, a minha beleza não vai durar pra sempre, estou quase me formando, já fui noiva e tenho ambições de construir um relacionamento com alguém. E mesmo que não o construa, não tenho intenção de ficar mais no modo “stand-by”. Vida que segue, meu bem. Garçom, champanhota para dois nesse momento. Se não teve no início, ok. Hoje, no final, merecemos duas taças borbulhantes. Um brinde ao momento oportuno de parar!
Discordo do Carpinejar, segundo o poeta, uma faísca atrasada ainda é capaz de incendiar uma floresta inteira. Será? Se ela se atrasou, a chuva [ou o bom-senso] chegaram antes dela. Eu fiz o que estava ao meu alcance para tentar de verdade. Não deu. Que ótimo! Não te espero logo ali na frente, na próxima curva ou crise de carência. Não espero que você mude de atitude ou de idéia. Não espero que encontre tempo ou vontade de vir ao meu encontro. Não espero. Não atropelo. Só não desejo querê-lo por vaidade, perderia todo o encanto.
Das coisas que continuo desejando, com toda a minha alma, não desisto do meu diploma de jornalista, de escrever um livro, de viajar pelo mundo, de alguns poucos amigos, da minha irmã e de me sentir amada.
P.S. ao ex-noivo: se eu nunca disse, obrigada, sem você eu jamais saberia o que é ser amada, enxergada. Você me tirou do canto, onde eu tentava me esconder e me defender do mundo e me pôs no centro do salão. Você quis casar comigo, viajar comigo, passear comigo, dançar comigo. E quando acabou, ainda me deixou no centro. Devo a nós dois continuar lá. Estonteante. Firme. Até encontrar um outro par disposto a dançar na pista e no meu ritmo.
Um dos meus maiores motivos de discussão com a minha mãe sempre foi seu machismo exacerbado. Diante de tantos comentários a respeito do vestido rosa-shocking da moça da Uniban essa semana, lembrei de algumas pérolas proferidas pela dona Neca ao longo das duas décadas em que dividimos o mesmo teto. Minha mãe, até hoje, adora dizer: -“Sim, usa uma saia desse tamanho e depois ainda vai querer reclamar se for estuprada.”
Sexta-feira ouvi, acidamente, um comentário péssimo a meu respeito. Em meio a uma situação desagradabilíssima, fui chamada de “uma mulher de hábitos caros”. A pessoa em questão referia-se às minhas compras no mercado na semana anterior. Havia-me encontrado na fila do caixa e identificado [indiscretamente] na minha cestinha pão integral light, torradas, patês de salmão rosa, de queijo com salmão e de ervas finas com azeitona roxa. Além, é claro, de uma lata de Capuccino.
Alguém já escreveu ”o princípio do amor é a incerteza.” A permanência incerta do ser amado nos seus braços. Concordo em parte. O princípio do meu afeto é a incerteza. Mas não sobre você. Sobre mim. Sempre sei quem sou, o que quero e porque quero. Tua presença leva por terra todas as minhas certezas. Não é insegurança. É uma falta de lugar para as mãos, a preocupação se o sorriso não parece tolo, se a unha está desbicada [tormento, sempre está!]…Eu, tão acostumada a dominar as situações. Me perco sob circunstâncias que comandas. E gosto desse perder-me [intriga, instiga, inspira].
Não é novidade pra ninguém, por mim o expediente começaria às 13h. Eu odeio acordar cedo! Acho humanamente desnecessário. Pior, sou lerda antes do meio-dia. Não consigo fazer coisas básicas. Não é raro eu encontrar hematomas nos braços durante o banho e lembrar que me bati enquanto fazia café. Até meus reflexos se arrastam. Não sou mal-humorada porque nem isso consigo ser. Exigiria esforço. E eu sou um nadinha de manhã.
“ Esse teu olhar apaixonado te redime de qualquer merda que tu tenha feito”…
Este ano chorei pouquíssimo. Tive episódios dolorosos que não foram chorados. Se eu contar na mão, sobrarão dedos quantas vezes expus em lágrimas a dor nos últimos tempos. Acho que, de certa maneira, endureci. E não é exatamente um orgulho. também não me envergonha a dureza. Teria vergonha se eu fosse o tipo “ mulherzinha” refugiada no choro pra tudo. Valorizo demais minhas lágrimas. Por isso elas rolam pouco. Rolam bem mais nas minhas alegrias que nas tristezas.
Ontem, forçando-me a sair e a seguir em frente [porque toda mulher inteligente sabe que ficar em casa de galho pensando no passado atrasa a vida] aceitei tomar chope com um amigo. Ok, até aí tudo bem. Shopping -odeio!-, mesinha da praça de alimentação, papo vai, papo vem e surgem algumas semelhanças com o dito cujo que tento esquecer. Começa a falar do filho…pqp, tem um filho, é o inferno astral! O filho mora em outra cidade [já começo a procurar a câmera escondida, só pode ser uma pegadinha!].