Aos poucos tenho mudado, algumas coisas por vontade, outras por força do quotidiano que me atropela. Ontem, quando fui dormir, notei que apago a luz e a tv. Sempre quis que meus medos de dormir sozinha passassem, e nem notei quando foi a primeira vez que aconteceu. Fiquei pensando em que momento eu perdi este detalhe.

Será que foi numa noite em que desmaiei na cama, exausta da rotina? Ou teria sido numa noite em que me entreguei ao meu edredon como refúgio de um eventual porre? Quando teria sido?

Meus ritos de passagem à idade adulta, onde permanecerei pra sempre, estão acontecendo e nem mesmo tenho percebido. Não tem mais “bíssu” no escuro e o caminho até o interruptor não é longo e cheio de temores. Será que eu cresci?

Também percebi que uma das minhas marcas registradas está ficando mais rara no meu pseudo-armário: as roupas e acessórios cor-de-rosa. Logo eu, que já fui chamada de Penélope Charmosa, Pink Panther, Pink…agora não compro mais peças desta tonalidade. As pequenas mudanças que vão me fazendo notar que o tempo está passando e há de passar cada vez mais rápido.

Lembro de, apesar de tonta de sono, sentar na beirada da cama e sentir como se algo tivesse ido embora, como se uma despedida se desvelasse perante os meus olhos e um pedaço de mim tivesse me dado adeus. Também me perguntava quando foi a primeira vez que eu teria escolhido a peça vermelha à cor-de-rosa numa loja? O que estava pensado no momento?

Ah, pelo menos para esta última, encontrei uma resposta: seria em nome da credibilidade. Eu teria de construí-la sem parecer uma adolescente, e esta mudança foi voluntária embora um pouco desconfortável. Lembro-me de ter começado fazendo uma faxina no armário, logo depois ficando na frente do espelho e me questionando “eu confiaria em alguém com esta aparência?”

Então comecei a me obrigar a alisar o cabelo, abolir as bijouterias e os bichanos, manter as unhas impecáveis e, por fim, as bolsas pink. Elas teriam de ter um fim. Confesso que, até agora só consegui me desfazer de duas; uma continua pendurada, como que a me olhar e perguntar: “mas já fomos parceiras de festa, viagem, travessuras, você tem certeza que quer me jogar fora?” eis que terei de responder a ela: -“Não, eu não tenho certeza, porém, é necessário. Por dentro você já não me cabe, só falta exteriorizar esta falta de espaço.”

 

 

“Não somos apenas o que fazemos, mas também o que fazemos para mudar o que somos.” (Galeano)

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