circo

Sábado de chuva em BC -aliás, chuva e BC na mesma frase é, no mínimo, redundante. Depois de me rolar na cama o dia todo, resolvi driblar o antibiótico para a garganta e me arriscar no dilúvio. Rumei ao bar mexicano da frente de casa.

Nada de novo até aí, exceto o fato de ter sido acompanhada de mim mesma -naquele momento, não havia companhia melhor! Era mais um dos dias em que a humanidade com um todo me causa enjôo. Pensei em chamar as meninas  mas sua demora para se arrumarem como bonecas já me irritaria. Cogitei os meninos, aí lembrei: quem não foi embora, casou, ou as duas coisas juntas. Então em 5 minutos [mulher atípica!], pus um jeans,  a blusa preta de ombro caído, uma bota, gloss, perfume, peguei as chaves e lá fui eu…reinando absoluta!

Sentei à mesa de costume e fiz o pedido quase rotineiro:  -Stella e Jose Cuervo Blanca.

Enquanto bebia, concentrada em meu “balanço anual” e já quase melancólica pelas perdas- Schali, Lu, Kauan, Poli, vocs me fazem muita falta!- recebi o primeiro drink  com curassau blue. Junto um bilhete e um brindezinho cretino no ar dum indivíduo na mesa da frente. Se eu tivesse com um pouquinho menos de humor, tinha vomitado naquele copo e mandado de volta. Não sei se pelo erro crasso de concordância no papel, pelo péssimo gosto para bebida ou pela ousadia de se dar o direito de interromper meu momento “eu comigo mesma”.

Pelo menos o garçon [amigo] e o infeliz que mandou a bomba azul notaram meu asco pelo gesto. Quando pedi a segunda Stella e a terceira Tequila, pousa na mesa outro drink, desta vez com um guarda-chuvinha [corre, é uma cilada!]. Já estava quase levantando para devolver em mãos e o garçom avisa: -Não, este é do cara da mesa do lado.

Pensei:  Puuuuuutz! Dá pra me deixarem em paz? Tô a fim de ficar na minha, optei por estar aqui ouvindo surf music, bebendo e pensando na minha vida, nos meus caminhos. Será que não tenho este direito? 

Fiz aquela cara de nojo [que me é inerente] e mandei devolver, imagino que tenha entendido a mensagem.  E apesar de toda a minha “postura iron maiden” e  olhar absorto no carinha tocando Donavon, continuava me sentindo desconfortavelmente  observada. Já não conseguia mais me concentrar no “balanço 2008” até que na quarta Stella, o estopim:  um sem noção daqueles com cara de modelo curitibano, jeito de curitibano e arrogância de curitibano resolveu sentar-se à minha mesa. Sim, sem me pedir licença. Sentia-se acima dos outros mortais por ser de Curita, só pode! Foi logo soltando uma “nova como andar pra frente”:

-O que uma mulher tão bonita faz num sábado à noite sentada sozinha num bar? [só faltou a voz de locutor de rádio brega]

Juro, gente, eu tentei! Contei até 10 mentalmente para não ser grossa mas não deu, a sensação de ter sido invadida, violada no meu espaço foi muito grande. Tá, mas vocês querem logo saber como foi o “toco”. Resposta “suave como Dove”: -Olha, quem te disse que estou sozinha?

Ele- estou há mais de 40 minutos te observando e não há ninguém além de você aqui.

Eu- Já te disseram que não está só quem está consigo mesmo?

Ele- Mas eu poderia te fazer companhia.

Eu- Olha, eu pedi mesa pra um porque estava confortável assim.

Ele- Você é jogo duro, hein?Mas não acredito que uma mulher tão bonita tenha saído de casa para ficar sozinha.

Eu- Bom, primeiro que eu não saí de casa, tá vendo ali (apontei) o apartamento com a luz acesa? Eu moro ali, isso definitivamente não é uma saída pra mim, é quase o meu alpendre.

Ele (insistentemente chato!)- Melhor ainda, você mora perto, posso te levar pra casa.

Eu(já com a Stella na mão)- Garçom, anota, tô indo.

Ele (chaaaaaaaaaaaato!)- Ei, peraí, posso te acompanhar? Pelo menos me diz teu nome!

Eu (contando mentalmente até 40, virando e voltando dois passos da porta)- Ok, mas só te digo meu nome se tu acertar uma charada!

Ele- Manda, sou bom nisso!

Eu (falando alto já)- qual é a diferença entre ir a um circo e a um bar desacompanhada?

Ele- Hummmm…no circo você não tem a sorte de me conhecer?

Eu- Exato, no circo, felizmente, os palhaços não falam com a gente.

 

Sim, e saí possessa sob a torrencial chuva, odiando todas a mulheres da face da Terra porque permitem que o machismo se perpetue quando ficam caladas e omissas, numa situação dessas. Odiei a minha mãe naquele momento porque me ensinou a ter classe (por que raios em vez de me ensinar a sentar e cruzar as pernas como uma mocinha, ela não me ensinou a dar um soco?).  Por que, obrigatoriamente, uma mulher desacompanhada tem de estar em busca  de um homem?

Como se homens fossem uma forma de vida superior sem a qual não se vive. Juro, não sou nenhum pouco misógina, entretanto quero  a liberdade de sentar no bar embaixo de casa, beber,  curtir a música e pensar sozinha, sem interrupções masculinas.

Sério, já passei na frente de muita construção de minissaia -e só Deus sabe o que a gente ouve!- contudo, nunca me senti tão desrespeitada na minha condição de mulher . A impressão era de ter sido rebaixada a mero pedaço de carne pendurada –tá, picanha, mas ainda um pedaço de carne- esperando para ser apanhada e devorada. E depois eu é que tenho fama de grossa!

 

P.S.:   Papai Noel, sei que fui uma péssima menina o ano todo, a vida toda, mas como nunca deixo nada no prato, mereço um presente neste Natal: o cilindro de ar comprimido que o serial killer de “Onde os fracos Não têm vez” usa, porém numa versão compacta, que caiba na minha bolsa para eu levar a bares.

 

 

 

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