11dt5 Esta semana fiquei “de molho” devido a cuidados pós cirúrgicos. Um tédio. Ok, exceto pelo meu mais novo brinquedo: o tão desejado notebook.

              Como deveria ficar em repouso absoluto e a internet não estava funcionando, eu e meu amigo note nos tornamos íntimos neste período. Madrugadas intermináveis assistindo e reassistindo a filmes. Dos 999.000 filmes que vi, do que mais gostei foi “um segredo entre nós”. Rodado em 2008, fala sobre histórias veladas de família ecoando nos protagonistas durante as suas vidas. Sou um tanto suspeita para falar pois ainda não vi filme estrelado pela Julia Roberts desinteressante.

                  Nesta história, Julia interpreta a mãe de um escritor marcado por traumas de infância. Quando morre, o filho descobre o caso dela com um homem mais jovem. Além disso, alguns outros segredos vêem à tona, como a maneira que seu pai o torturava na infância. A morte obriga que ambos tenham novamente de conviver. A presença incômoda do antigo algoz faz o passado ser revivido

                    Conheço gente assim. Gente traumatizada, travada em algum ou vários aspectos por ter vivido situações dramáticas na infância. É triste ver os estragos que o despreparo de alguns pais pode acarretar numa pessoa. É doloroso conviver com marcas involuntárias duma infância mal tratada feitas numa alma. Muitos jamais se recuperam.

                     Quando somos adultos, aprendemos a nos defender dos traumas. Há um bom tempo estou tentando lidar com os meus. Os antigos, difíceis de mudar, eu os bloqueio até achar um jeito melhor de resolvê-los. As situações novas, passíveis de me traumatizarem, finjo não terem acontecido. Não olho. Não paro para pensar nelas. Não dou chance de se tornarem um empecilho na minha vida. Já ouvi da minha mãe um chocante: -“tu não tem coração” por isso. Já deixei outros tantos sem graça ao me perguntarem “tu não morava em tal lugar?”e eu responder um lacônico não. Detalhe, a pessoa sabe quem eu era e também sei quem é a criatura. O meu não evita estender a conversa. Não era eu. Não aconteceu. Não precisamos falar neste assunto. Não preciso revivê-lo e sofrer mais uma vez. Pronto.

                     Se ter coração é se obrigar a sofrer. Chorar por coisas que você, por algum motivo, teve de viver, prefiro não tê-lo. Sofrer não é indício de ter coração. Tenho coração para amar. Para sofrer eu tenho fígado…dá-lhe cerveja!

                         Trauma tem às pencas por aí dando sopa, louco pra entrar na cabeça da gente e destruir nosso tênue equilíbrio. Já tenho os meus, obrigada. Não aceito novos. E se o preço for a frieza, pagá-lo-ei. Marthinha fala da “mulher culpa zero”. Piaf canta visceralmente “non, je ne regrette rien” (não, eu não me arrependo de nada). Viu, não sou a única!

                       “Um segredo entre nós” não vale apenas pelo lindo Ryan Reynolds de barba, óculos e gravata- o genro que a mãe queria- vale também pra refletir até que ponto deixaremos os traumas influenciarem nossas vidas.

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