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Ainda posso ouvir o som da tua risada naquelas tardes de inverno, nas nossas conversas. Sinto o cheiro ardido e particular do teu palheiro. O jeito de passar a palha, de cortar o fumo. Ouço o ronco da cuia e te revejo sentada num canto da casa da gente, de perna cruzada. Num canto, dentro da sua infinita humildade, tudo pra não incomodar. Sempre vejo você assim: humilde, sábia e espontânea. No seu canto. Na “sua casinha” como costumava falar. Rememoro as tardes brincando de comadre, o gosto do mate-doce e das roscas fritas.  Lembro daquele quadro negro em que você me ensinou a escrever meu nome. “A Bruna nasceu pra escrita”, dizia do alto da sua sabedoria, a minha primeira professora.

É, nasci para a escrita. Mas não deu tempo de você ler. Desde que você se foi, trabalhei, entrei na faculdade, fiz um monte de besteiras. Conheci o amor, me mudei mais algumas outras vezes. Emagreci e engordei uns 50 quilos. Mudei a cor do cabelo, o corte. Tive bons verões. Aprendi a amar a mãe como ela é. Deixei de falar com o pai. Escrevi e amei violentamente. Nada disso você presenciou. Não deu tempo de ver sua última benzedura dar certo. Ou suas previsões se concretizarem.

Não deu tempo de ver a beleza que só você enxergava em mim aflorar  e a mulher linda que me tornei.Você sempre soube. Nem viu os meus textos. Queria lê-los pra ti. Faltou tempo pra gente sentar e tomar um mate doce junto de novo. Faltou me ensinar um pouco sobre as ervas. Tu levou tanto contigo. E deixou outro tanto em todas nós. A mãe ficou com tua força e a tua pouca cerimônia. Eu, tua intuição. A Pri tem tua vaidade. A dinda herdou a tua fé. A tia Oraide, teu abraço. Somos todas um pouco de ti. Por isso tamanha saudade. Te enxergamos em nós.

Só escrevi porque daonde você está eu não tenho o CEP. Também não vou pôr meus pés onde seu corpo descansou. Se alguém me ensinou que a vida transcende a carne, foi você. Então escolho ficar com teu riso rasgado e sonoro, tua mão lisinha. Teu cheiro de banho. Teu pó de arroz e o creme para o rosto. O fogão a lenha. Prefiro a vida. Assim você ainda estará aqui.

Escrevi porque mesmo depois de três anos, sinto tua falta. Todas sentimos. E certamente hei de senti-la por toda a minha vida. Por tudo o que não deu tempo de fazer.Teu lugar estará vago no meu casamento. Nos aniversários, nos partos. Nas reuniões de família. Mas sobretudo, o vazio da tua ausência será palpável na minha formatura. Depois de tantos anos estudando, queria ganhar parabéns da minha primeira professora. Da figura feminina mais forte na minha história. Da minha avó.

Um abraço bem apertado – que me perdoem os outros!- da tua neta favorita

Bruna

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