on_being_free_b          Marthinha já escreveu que “assim como misturar bebidas, misturar pessoas também pode ser perigoso”. Não acreditava. Sempre pensei que as pessoas queridas deviam colar em nós. Ledo engano.

                                     Só produzo algo relevante quando sozinha na frente do meu[e quando só meu!] note. Preciso da solidão. Do silêncio pra me organizar. Preciso do sossego. De não ser observada. De não ser questionada quando meus risos viram meios-sorrisos. Fico sem graça, vazia quando não tenho tempo pra mim. É como se não houvesse carregado minha bateria e estou ali, fraca, quase desligando, cumprindo funções. É a idade chegando com as manias. Mania de escritora.

                           A maioria descobre seu talento quando o exercita. Descobri o meu na falta de exercê-lo. Não me restam dúvidas: sou escritora. E isso me é tão latente que não consigo viver sem escrever. Falta-me um pedaço de alma. Escrevo para que o que sinto não se perca. Mas para a alma me ditar as linhas, preciso de sossego. Do contraste do quarto escuro com as marteladas na tela branca.

                         Fico sufocada quando não escrevo. Aliás, não é a primeira vez que digo: aprendo a escrever crônicas para me desafogar.  Contudo, não há como me desafogar se não a sós. Prezo meus momentos de solidão. Minha face heremita. Algumas horas por semana é o suficiente. [Sai de perto, quero ficar sozinha! Não, não aconteceu nada!]

                                Nunca fui de muitos amigos. Era uma criança fã de revistas, livros, filmes, televisão. Minha mãe se preocupava com meu comportamento “anti-social”. Quero deitar na minha cama e ler um Rubem Fonseca [que também não deve escrever nada quando acompanhado]. Escrever frases soltas no meu note na hora da inspiração sem pedir licença. Ouvir minha pasta repleta de Paulinho Moska, Zeca Baleiro e Maria Rita. Me quero de volta por algum tempo. Quero a cultura que sempre me alimentou a alma. Me sinto burra porque não leio há quase um mês. Não escrevo. Não ouço minhas músicas. Cadê eu?

                      Não realizo o Flaubert escrevendo Bovary em meio ao caos, com uma companhia por perto falando, disputando seu instrumento de escrita. Impossível. Nem Carpinejar sem o isolamento do seu escritório daonde não escuta o ruído dos filhotes [para quem escreve]derrubando a casa. Escrever é um ato completa e absolutamente solitário. É como chorar. Cada uma das lágrimas que me rola ou linha teclada aqui é só minha. Me deixe em paz para que produza. Me deixe no silêncio de meus gritos internos. Cada palavra é um pedaço de alma. Não se manifesta em meio ao caos externo.

                     E não, definitivamente, minhas companhias não são enfadonhas. Muito antes pelo contrário. É a melhor companhia que poderia ter. Entretanto, às vezes tenho necessidade de mim. Não desejo ser ninguém se não eu mesma. Por isso preciso visceralmente de momentos de solidão. Para me esvaziar ou me preencher.  Apenas ficar na minha companhia. Não está só quem está consigo mesmo. E fim.

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