“E amar o inóspito, o cru”, essa frase do Drummond, pra mim, é uma das coisas mais primorosas já escritas em língua portuguesa. Quantas formas a gente tem de amar e insiste em amar o fácil, o que se revela rápido. Homens adoram mulheres frágeis, mulheres amam homens que lhe despertem o espírito materno.  Simplesmente por necessidade de se sentirem indispensáveis.

                      Ele a ama porque sabe que se terminar com ela, ela é capaz de anular o resto do dia ou da semana chorando trancada num quarto escuro. Ela o ama porque tem plena certeza de que ninguém fará aquela omelete pra ele. Quanta tolice! Há tempos prego o amor sem a necessidade. O “eu te amo mas se você não ficar comigo, a minha vida não vai acabar e nem eu vou chorar mais que uma manhã por causa disso.” Tenho buscado o amor sem rugas. Sem estresse, sem me criar rugas, por favor! E creia: esse amor ninguém está muito disposto a me dar porque se sente aconchegado mas não indispensável do meu lado. Afinal, eu amo embora não venere.

                 Eu me entrego [e como!] cada vez que sou acometida de paixão. Entretanto, a pessoa mais importante da minha vida ainda serei eu sempre. Estão todos esperando um amor à laTitanic, com aquela deixazinha brega como calcinha bege: “você me salvou de todas as maneiras que alguém pode ser salvo”.

                          Por causa dessa necessidade visceral de ser salvo, para onde olho, vejo relações doentias. E nelas, as pessoas se sujeitam a viver somente do que recebem do parceiro. “Ele é um inseguro com o tamanho do dote e me tortura por isso mas me trata bem”, “ele faz xixi de pé no meu banheiro e apesar de me namorar há dois anos jamais cogitou  a hipótese de me apresentar à família mas diz que me ama”. Pelo amor de Deus, o nome disso é esmola emocional. Quem acha desculpas para os erros dos outros e tenta fingir que vive um mar de rosas, que me perdoe, definitivamente está doente e o nome disso é dependência.

                         No fundo, o que essas pessoas têm é uma baixa expectativa em relação a si mesmas. No íntimo, quando ninguém está olhando, elas pensam “não é tudo o que eu queria porém é o melhor que posso ter”. Eu tenho pavor dessas relações simbióticas e parasitárias. E a minha teoria é simples, elas só existem porque insistimos em amar o frágil para nos sentirmos importantes.

                         Amar o forte, o destemido [ou a forte e destemida] é milhares de vezes mais difícil entretanto, certamente, a que se impõe e não se humilha por migalhas, vai te amar pelo que você é e não porque você tem aquilo que lhe falta. Indubitavelmente, é mais difícil amar este tipo de pessoa, “o inóspito, o cru” contudo, é mais fascinante e muito mais recompensador.

 P.S: e se for para ter esse tipo miserável de relação, quero continuar solteira em 2010.

Anúncios