Não é uma novidade que não gosto de crianças. Não tenho saco mesmo, não tenho paciência nem o mínimo jeito com elas. Entretanto, adoro gente idosa. Não gente decrepta, por favor, mas quem já passou dos sessenta, tem muita história para contar embora não alugue ninguém com episódios de 1918. Tenho a sorte de trabalhar, majoritariamente, com esse público. Senhoras casadas, mães e avós realizadas.

                        Jornalista precisa saber ouvir, pois antes de ser um contador de histórias, é um “ouvidor” das mesmas. E essas histórias, normalmente, são contadas acompanhadas de conselhos. Nunca fui de seguir conselhos entretanto, tenho ouvido-os e, além disso, seguido alguns deles. Tenho relevado os conselhos e sobretudo os elogios delas. Por quê? –Bom, reza a lenda que pessoas mais próximas do fim, com idade mais avançada e sentindo o sopro gelado da morte no cangote, tornam-se mais sensíveis à vida. Sabem, duma maneira, que nem mesmo podemos imaginar [imersos na onipotência da juventude] não serem imortais.

                         Essa sensibilidade maior à vida se mostra na leveza com que aproveitam o tempo remanescente. São mais bem-humoradas e se permitem mais. Não sei as velhinhas que você, leitor, conhece, mas as minhas são assim. Se permitem escapar de casa para uma jogatina, não aturam visitas por obrigação e dão mais risada que o normal. Ah, elas falam palavrão também. E só não flertam na rua com os bonitões porque o layout não lhes ajuda.

                         Às vezes, estou no telefone arrumando uma desculpa para dispensar uma balada e quando olho para o lado tem alguma delas me fazendo sinal dizendo: -vai, boba, vai fazer festa! E depois ainda querem saber como foi a noite. Com elas aprendi a não recusar uma saída, embora no outro dia eu tenha de acordar cedo. Isso até me recorda uma máxima do meu cabeleireiro [aliás, Junior, que saudade!!!]: -Bruna, aproveita, porque a juventude é passageira mas a velhice é permanente.

                               Nenhuma me diz que se pudesse voltar no tempo queria ter curtido mais a gravidez ou o início do casamento ou o crescimento dos filhos. Não, todas elas gostariam é de ter feito mais por si mesmas. Aproveitado mais, saído mais, feito festa, bebido, beijado, conhecido mais caras, virado noites na farra. Acham uma grande bobagem esse negócio de casar virgem. Elas gostariam é de ter vivido até a última gota da sua juventude com elas mesmas.

                            Percebi que a beleza está, justamente, na juventude. No brilho de ter o mundo aos pés, poder fazer tudo. E, normalmente arranjamos desculpas para nós mesmos para nos economizarmos. Ela não usa aquele vestido porque acha que está rechonchuda, ele não sai porque está meio sem grana, ela deixa de ficar com o cara que está olhando porque acredita que a espinha do nariz é do tamanho dum bonde.

                            E assim a vida vai passando… as baladas continuarão por aí mas a juventude e a beleza, essas, inevitavelmente, fenecerão. E, pelas minhas velhinhas, quando chegar à idade delas, quero olhar pra uma guria de 25 anos e dizer: -putz, eu aproveitei tu-do! Não deixei nada para trás. Fui a todas as festas, usei todos os microvestidos e plataformas que quis, usei e abusei do poder da minha beleza, tomei porres homéricos, virei noites, beijei quem eu quis e depois, bom, depois casei, perdi o brilho, não uso salto porque a artrite não deixa….

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