Adoro minha vida de solteira, sobretudo de solteira que mora sozinha. É um estilo de vida, tanto faz o que digam os dependentes de aplausos alheios, os que não escolhem a cor do esmalte sem pedir opinião. Prefiro os louros que eu mesma coloco na minha cabeça e ponho o meu bem-estar acima de qualquer coisa. Pago caro pela minha independência, pela minha casa e vale cada centavo, logo, me irritam invasões ao meu espaço.

                                 Ok, nesse momento, você deve estar me imaginando uma eremita de cabelos imensos que não transa há alguns anos. Errado. Sou uma mulher razoavelmente bem cuidada e com uma certa rotatividade nos lençóis [dos outros, pois não quero ninguém rolando nos meus]. Antes de tudo, aprendi a me respeitar, meu gênio indócil, um tanto intratável, minhas manias, meus silêncios quase ensurdecedores e meus momentos a sós.

                             Cecília, plagiando Lispector em estrofes, escreveu “tenho fases como a lua/ fases de andar escondida, fases de vir para a rua/ perdição da vida minha/tenho fases de ser tua/ tenho outras de ser sozinha”. Nas minhas “fases de ser sozinha”, justamente as criativas, gosto de ficar sozinha, ou comigo mesma. Nas nem tão criativas, gosto de esperar, a sós, pela inspiração.

                            Odeio gente invadindo, chegando perto demais. Já me estressei até com a melhor amiga por esse motivo. Dividimos apê por mais ou menos um mês e apesar de amá-la mais que a qualquer ser sobre a Terra, uma noite mandei a guria sair com outras amigas. Coitada, achou que eu estava brava com ela. Era só vontade de ficar sozinha mesmo, na cama, escrevendo ou lendo algo. Nada pessoal, é vontade de pensar [ou de não pensar]. Vontade de ficar com a Bruna, de porta fechada e sem interrupções.

                              Hoje em dia, uma das coisas mais importantes na nossa amizade é justamente a capacidade de uma respeitar o espaço da outra. As vezes estamos deitadas na mesma cama, cada uma com seu note no colo e passamos horas em silêncio, e isso não interfere na relação nem levanta suspeitas de negligência. Pelo contrário, fortalece os laços num acordo tácito, nos conhecemos, nos sabemos e nos sentimos presentes. O amor é calmo e sem sufocamentos.

                           Quando estou ficando com alguém evito versar sobre morar sozinha. As poucas vezes que me fugiu a informação, logo em seguida a criatura [e isso é pior se o cara morar com a mãe] já se sentia no direito de violentar meu espaço e propor um filme na minha casa, se oferecer para cozinhar, para dormir, para se jogar no meu sofá ou na minha cama [ o que estivesse mais próximo].

                         Ao detectar a pretensão de violar meu espaço, sou tomada por um asco físico do folgado. Já tive um relacionamento sufocante, em que a pessoa aparecia na minha casa todos os dias, dormia quase direto comigo e creia, isso só me gerou uma relação dúbia de amor e ódio. Acabei traindo, descarada e veementemente. Jamais senti culpa, era meu jeito de respirar.

                Atualmente, quando algum querido, ou nem tão querido assim, convida-se para se “folgar” no meu espaço com desculpas esfarrapadas como filme, pizza [Deus me livre!] ou visita, costumo tirar a faca que todo gaúcho desterrado traz na bota, lascar um sonoro: -“tu não tem casa?”…e fim de papo!

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