Sempre brigo com ela porque não lê. Brigo para se dar mais tempo. Ser mais disciplinada. Cuidar de si. Aprender novas sobremesas [odeio aquele pavê e aquele pudim!]. Apelo há anos para desistir de fumar. Para voltar às madeixas vermelho-cereja e as mechas louro-claríssimo. Insisto que faça hidratação nos cabelos e aprenda a passar sombra nas pálpebras. Que se imponha no seu relacionamento e use desinfetante e limpa-vidros.

Ela insiste para eu pegar mais leve. Para controlar a gula [bandida!]. Quer me livrar de exageros e mentiras. Tenta me ensinar a passar minhas roupas. A abandonar o cacoete de arrancar a pele da boca, quando nervosa. A usar menos tempero quando assumo as panelas. A ser menos ríspida. A sofrer menos. A me doar mais.

Tanto tempo quis negar nossa semelhança. Achava que discutíamos por sermos muito diferentes, quando na verdade, somos é muito parecidas. E não foi só essa pele abençoada que me deu. Foi aquela gargalhada sonora [gaitada de galpão]. Foi um pouco da sua força. Muito da sua maneira de amar. Por isso as desavenças: quer me proteger de mim mesma. Como não pôde proteger-se de si. Como não conseguiu se proteger do mundo.

Sei que não sou sua favorita mas me basta o olhar de orgulho quando me vê discutir política ou quando lê algo que escrevi. Quando me vê brilhando com o charme de mulher sedutora que o tempo me trouxe de bom grado. Ainda que não me enxergue [nem a mim nem minhas razões] e não saiba quem sou na maior parte do tempo, sei que me ama, desse nosso jeito torto e instintivo. Reconheço, é ingrato do destino me fazer brilhar na sua frente quando não apostava em mim [ainda não aposta].

 Visitá-la é ouvir suas gaitadas enchendo tudo em volta de alegria rasgada, ouvi-la falando das atrizes da TV como se almoçassem na sua cozinha desde sempre. Debochar quando jura que o cachorro sorri pra ela, quase morrer asfixiada quando despeja [ops, desculpa, passa] perfume. Contar-lhe os planos que não conto a ninguém, exceto pra ela, preocupá-la com meus segredos, descobrir produtos de limpeza, batatas pré-fritas e encarregá-la das novenas. É sempre subtrair alguma coisa das suas gavetas, seja um top ou uma calcinha confortável. Trazer na mala mais que uma porcaria, uma saudade.

Ela nunca acerta os presentes que me dá. Ou é um casaco sem noção, sem corte. Uma blusa larga e comprida demais, um tamanco grotesco. Cada vez que diz que vai me fazer uma surpresa, suo frio, confesso. Penso: Jesus, que coisa esdrúxula vem agora? Tenho medo de pensar em como me enxerga [ou não enxerga]. Desisti há muito de presenteá-la porque não valorizava meus regalos. Ainda sei que gosta de estampas de oncinha,[ parece um safári e combina com ela]. Prefere sapatos confortáveis por causa do tal joanete. Adereços e mais adereços. Colares, pulseiras, anéis…e tudo isso  que cai bem só nela. É uma mistura de sensações. É a minha parceira de indiadas atrás de cartomantes ou verduras na feira.

Minha mãe tem o cheiro dela, o barulho dela, o jeito de me chamar de “tutu”  que me quebra no meio.Me deixa, por momentos, ser só a menina absorta em livros, e ávida pelo mundo dos adultos,  de décadas atrás. Minha mãe tem o jeito de me olhar que me deixa irritada por encontrar em mim o que escondo: a Bruninha da vó. A “ inha”, a guriazinha. Porque ainda guarda minha boneca favorita e tenho medo de querer brincar de novo.

Minha mãe tem uma memória péssima. Normalmente não lembra o que almoçou ontem. Todavia, lembra exatamente de tudo que eu tento esquecer. Lembra que gosto de rúcula e me espera com danoninho. Lembra do meu gosto por cor-de-rosa e ainda me vê em roupas desse tom. Ela não vê o que quero que vejam. Ela ainda vê uma Bruna que fiz questão de deixar pra trás.

Mas, como prova de que as coisas podem mudar, hoje ela me deu o melhor de todos os presentes: um autógrafo do Caco Barcellos. Ficou na fila, esperando, com o exemplar do meu livro favorito embaixo do braço para pedir seu e-mail e dizer-lhe que sou sua maior fã. Fez por mim, fez porque me enxerga e porque, finalmente, entende meus motivos.  Eu não a amava porque só via seus olhos voltados à outra direção entretanto nada me fez mais feliz que ter sua atenção e valer o sacrifício. Agora eu sei o quanto me respeita e faz parte do meu mundo, o mundo dos meus livros.

Mãe, eu nunca consegui te amar, sempre fui dura demais.  A partir de agora, podemos começar de novo.Também te devo olhares e algum respeito pelo teu mundo. Apesar de jamais  imaginar que diria isso , tenho orgulho de ser tua filha. Não me imagino sê-lo de mais ninguém. É provável que tua pouca cerimônia tenha cativado-o como cativa a tantos, é divertido imaginar a cena. Estou certa de que há muita coisa errada entre nós ainda, contudo, há coisas que não poderiam ser melhores. Coração não tem serventia se não tem visão.

Obrigada pela fila, pelas fotos, pelo autógrafo, sobretudo, obrigada, finalmente, por me enxergar! Obrigada pelas lágrimas que me escorrem nesta face rígida, obrigada por me devolver o coração [e o rumo]. No fim das contas, era só falta de amor. O amor que te faltou, o amor que me falta…é só amor.

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