Eu nunca confessei isso nem à minha sombra mas a minha irmã um dia teve a grandeza de falar sobre o assunto e me desarmar de certa forma. A separação dos meus pais me foi traumática de todas as formas que pode sê-lo a alguém. Eu jamais fui a mesma desde então porque me decepcionei com os que estavam à minha volta. Não lido bem até hoje com isso e se me pedissem para escolher entre perder um braço e passar por aquilo de novo, eu daria, de bom grado, os dois.

Há várias formas de se abandonar alguém, abandonar não é só partir fisicamente. Abandona-se negligenciando, abandona-se ficando mas não se dedicando. Abandona-se fazendo jogos torturantes psicológicos com alguém que não sabe nem deve revidar. Abandona-se quando se machuca alguém. Abandono é o contrário do amor. Abandona-se jogando suas frustrações sobre o outro. Abandona-se matando uma alma ao violentar seu corpo. Abandona-se sobretudo quando não se é capaz de cumprir promessas simples. 

“No recreio” da Cássia Eller, era uma das músicas da trilha sonora da minha infância com a minha irmã -temos uma lista delas, ou tínhamos- porque nesse tempo péssimo, uma coisa bacana floresceu: a nossa amizade. Era a ilha de diversão e infância que restava. Um dia a Pri me olha e diz: na verdade não doi perder um pai simplesmente porque jamais o tive. era pequena demais para entender sua presença e grande demais para entender suas ausências.

Há um trecho que diz “sem precisar procurar, nem descansar e adormecer”… eu não sabia exatamente o significado disso pra ela, nem prestava atenção na frase até que ela comentou que lembrava das visitas que o pai falhava sem avisar e ela dormia no sofá de tanto esperar por alguém que não vem. Eu não lembrava direito porque fiz um esforço tremendo para esquecer e porque não tinha passado novamente por situação similar.

Só fui lembrar disso quando me peguei esperando por alguém que fez a mesma coisa algumas vezes comigo. E me odiei como nunca aquela noite. Não rasguei a roupa inteira de raiva por pouco, porque adoro aquele vestido! Mas fiquei realmente muito decepcionada, não com o bossal, mas comigo. Porque só fazem conosco o que permitimos que seja feito. Eu quebrara meu próprio juramento de quando me mandei da terra das lembranças. Jurei nunca mais me sentir vítima de uma situação e me traí.

Só era pior agora a sensação de abandono porque sou uma mulher, não uma menina passiva que dorme no sofá e porque tinha plena consciência: para chegar a sentir o abandono eu havia me abandonado antes. No fim das contas, só fazem com a gente o que permitimos quando nos negligenciamos.

Anúncios