Hoje estava dando conselhos a uma amiga que teve uma recaída essa semana. Saiu com o ex mais uma vez. Nem preciso citar o desfecho depois dos lençóis novamente esticados: a moça chorava, devastada, e o rapaz seguia, incólume, como se nada tivesse acontecido. E, no fundo, pra ele, nada realmente aconteceu. Só pra ela. O meu pitaco versava [nada original] sobre não mais procurá-lo, não ligar, não ver, tirar do alcance da mente. E, claro, como não poderia deixar de ser, arrematava com o clichê “amiga, ele não te merece”.

Quando terminei de proferir a sentença, notei a besteira dita . Mas o que importa se a merece ou não? Quando se está apaixonada, é aquele indivíduo que se quer, merecendo-a ou não. E deixar de procurar? Como assim? A ausência do amado empurra pra perto da dor. Tu sabe que a praga não vai atender, mas tu liga. Tu sabe que ele dorme com todo mundo porém tu acredita, veementemente, que vocês dois juntos têm algo especial, algo raro, só de vocês. Tu procura, fuça, quer saber qualquer detalhe que faça sentir mais próxima.

E tanto faz se a melhor amiga diz que o fulano não presta; pra ti, presta. Tu pede conselhos pra dizer “é verdade” e ir pro banheiro discar o  número da criatura. Enquanto não tenta de tudo, enquanto não há overdose do amor não correspondido, não há um fim. Não há uma medida de lágrimas a despencar ou um número de vezes para receber de volta o silêncio até decretar a morte do amor. Até porque não é decretada, fenece por si, aos poucos.

Eu cansei de fugir da falta que sinto de ti, tentei negar, briguei com quem me mandava desencanar. O amor é meu e só eu sei se me faz bem ou mal… é a minha última ressonância humana…me deixem sentir do meu jeito. Me deixem viver o infinitésimo de segundo em que vejo uma barba mal feita na calçada do mercado e sinto os tremores [ah, os tremores!]. Só por aquele instante, as idéias embaçam, penso se meu cabelo está apresentável ou se já mostro sinais dos quilos a menos. E mesmo sem saber o que faria se a barba fosse tua, eu consigo retornar da inércia.

Então não me venham com fórmulas sobre o quanto sentir ou por quem sentir. Eu sei que vai passar, por isso fugia tanto de admitir o sentimento, sabia que antes de passar, haveria céu e inferno, riso, gozo, dor e pranto. Apenas me deixem sentir, sem interrupções, até a última gota sem puxar meu pé para o chão. Eu preciso sentir. Sou melhor quando sinto. Só consigo extrair palavras do meu turbilhão particular, nunca da inércia.

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