Já escreveu Veríssimo: “há uma linha muito tênue entre hobby e doença mental”. Eu a ultrapassei. Como todos sabem, estou de casa nova e, estranhamente, é a primeira casa que sinto como minha. A primeira vez desde a separação dos meus pais que não me sinto deslocada, como uma blusa branca emprestada a uma amiga rechonchuda. Desde sempre lembro de sentir como se nunca fosse o meu lugar, como se eu não combinasse com tudo aquilo que me rodeasse.

 Primeiro a casa materna: minha mãe com seu péssimo humor e gosto para decoração. Depois as parcerias de apartamento, das piores, ficamos com a promíscua, as maconheiras porcas, a depressiva, a senhora-critica-tudo-e-não-se-enxerga e, finalmente, o sem noção. Depois as casas que não pareciam minhas. O que soa como uma bênção a estudantes recém-chegados a Bc, atualmente me causa calafrios: apartamentos mobiliados [se alguém te oferecer, corre, é uma cilada!]. Pensa na mobília mais esdrúxula que se pode ter, incluindo sofás azuis, ela mesma.

E, final e redentoramente, a minha casa, com janelas imensas. Aliás, as pessoas costumam comentar: -“Nossa, não dá para ter crianças nesse apartamento, essas janelas baixas, em pleno sétimo andar,  são um perigo!” [sim, e tudo que eu queria na vida eram crianças no meu tapete preto mesmo…] Desde minha entrada, no início de julho, já mudei várias coisas por aqui, cadeiras, sofá, colchão, geladeira, micro, cortinas, tapetes para colorir e deixar tudo mais aconchegante, troquei o chuveiro sozinha e até aprendi a pintar paredes. Pintei a do quarto de branco, para extirpar o exagero do amarelo e a da sala de vermelho para cobrir a cafonice do laranja. Ou seja, decorar meu apartamento virou meu passatempo favorito.

Até aí tudo bem, afinal, o apê precisava mesmo duns toques. O problema foi quando me peguei no espelho do banheiro numa noite de sexta tirando a maquiagem do rosto pois lembrei que no sábado pela manhã tinha curso de pátina demolição. Eu estava pronta, dentro dum dos vestidos novos, maquiada, perfumadíssima e bem empolgada para mais uma via sacra pelos bares de BC, Itajaí e Blumenau [sim, meu itinerário alcoólico ganhou uma nova cidade] e a dona-de-casa tomou o corpo.  

Era imprescindível fazer o curso pois tenho de dar um jeito na estante mega antiquada de madeira da minha sala mas daria para reagendar a data. Não me reconheço! A mulher de quem os amigos dizem se lembrar quando ouvem “E daí”, foi dormir cedo numa sexta à noite para fazer um curso de decoração com um bando de donas-de-casa desocupadas no sábado pela manhã. Realmente, meu hobby de decorar minha casa já está virando doença mental. Por favor, alguém me interne quando eu começar a fazer ponto-cruz!!!

P.S.: voltei a cozinhar!

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