Eu não sei exatamente em que pedaço do caminho eu perdi meu romantismo. Acredito sim no amor, torço pra todos os meus amigos acharem suas metades e vibro quando assim acontece. Sou aquela que chora mais que a mãe da noiva num casamento, tamanha felicidade. Mas há uma certeza tácita de que o amor não foi feito pra mim. Exceto pelo envelope de hoje.

À tarde, recebi pelo correio o segundo melhor presente da minha vida [talvez o melhor, porque não precisei pedi-lo]. O livro “O canalha” de Fabrício Carpinejar, enviado pela Ju, com tanto carinho e atenção aos mínimos detalhes, que chorei ao abrir e ver os dois autógrafos do autor na página de rosto.

A Ju é a esposa do Lu, meu melhor amigo desde os tempos de boteco em Itajaí. Eles se conheceram através do gosto pelo Carpinejar e creio que por isso essa história de amor me fascine tanto. Ambos leitores de um mesmo blog, de um mesmo autor, se conhecem e se namoram apesar de tantos quilômetros de distância [ele, Porto Alegre; ela, Goiânia]. As diferenças de estado e de estilo de vida encurtam-se.

Ela se muda para Porto Alegre, acostuma-se com os cachorros em casa, hoje os tem como filhos. Ele, por sua vez, baixa a guarda para o relacionamento, aprende a confiar nela e na sua entrega. Enquanto ele fotografa, ela segura a câmera, ele faz o churrasco, ela, a salada. Ela, cheia de vontade de aumentar a família, ele reluta no início e hoje, adora a idéia. Esse é o conto de fadas mais próximo que eu conheço, os dois branquinhos se conhecendo e se sabendo um ao outro.

Eu, por minha vez, ganhei uma leitora e uma amiga com quem compartilho desabafos e dicas de produtos de limpeza por MSN à tarde. Ganhei também um casal que liga em pleno show do Guilherme e Santiago pra cantar no telefone “tá se achando” e “e daí” pra mim.

Hoje, quando recebi o envelope laranja endereçado “Para a escritora Bruna Barievillo”, pensei no conto que tanto me falta escrever. Quero relatar Porto Alegre, os bares, os sebos, os cinemas, os shows internacionais, o teatro, quero ouvir TNT e tomar Polar num boteco e amanhecer o dia tomando vodka na Redenção. Quero falar dos domingos de churrasco ao meio-dia e chimarrão no fim da tarde no Guaíba com os dogs.

Também quero um “pimps” pra mim, quero narrar o “encontro de filme”: ele e eu à procura de um guia de cinema italiano ou uma compilação de poesia provençal numa daquelas livrarias imensas, e quando encontramos, há um único exemplar… ele tem grandes mãos, um nariz mais pronunciado embora fino, cabelos lisos, pele branca e sorriso de canto. Chegou à redenção dos trinta e poucos anos, é alto e tem uma barriguinha de cerveja que eu prezo, denuncia as horas filosofando em botecos e conhece alguns poemas para sussurrar quando os corpos estão exaustos sobre os lençois.

E então somos dois casais nos domingos da capital gaúcha, eu escrevo como nunca, sou colunista de alguns jornais, publico livros de crônicas e poesia, moro próximo ao Parcão. Eu e a Ju tomamos cafés nas livrarias à tarde com lenços envolvendo nossos pescoços e compramos produtos de limpeza juntas no super . A Ju não pode caminhar muito pois está com um barrigão de oito meses, o Lu não pára de tirar fotos, eu tenho insights criativos cada vez que vejo a expectativa dos dois.

E então acordo… na minha parede de espelhos cortados que desfiguram minha imagem, e só ressaltam minha solidão. Eu me viro tentando dormir de novo, contudo há um livro na cabeceira: “O canalha”. Pode não ter sido um sonho…

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