Confesso, não era lá muito “chegada” em cachorros. Até o dia em que a Lindinha me ganhou. Tenho um ciúme exacerbado dos meus pais e desde a chegada da Lindinha à casa da minha mãe, jamais ganhei colo novamente. Ok, eu já tinha 23 anos. Lindinha, a poodle branca [que segundo minha mãe, ri] roubara, definitivamente, o meu lugar no colo materno de coxas fofas. 

Eu tinha motivos para odiá-la. Fora desbancada. Depois de sua chegada, minha mãe não sentia tamanha saudade da filha que mora longe. Havia a companhia discreta e leal da Lindinha, com mau hálito, convenhamos, mas ela havia de ter um único defeito. Bem, numa das minhas visitas em casa, Lindinha notou minha hostilidade e, diferentemente de como as pessoas costumam agir com a marra dos outros, respeitou-me. Respeitou meu tempo e meu espaço.

Foi-se chegando aos poucos. Passou dias deitando-se próximo aos meus pés, sentou-se na poltrona ao lado da minha, encostou o focinho na minha barriga. Uma noite, sem perceber, estava deitada inteira, quentinha, enrolada, no meu colo enquanto a mãe pintava a unha do meu pé. Uma das patinhas quase caía para dentro da bacia em que meu outro pé estava de molho. Mesmo assim, ela se recusava a sair da minha barriga. Era verão, ela e eu demostrávamos calor. Entretanto, eu era sua conquista. Ela havia quebrado a parede de vidro da mais durona da família, e não se moveria do meu colo. Foram horas me rondando até me ganhar, não abriria mão [ou pata] de mim assim. O calor era irrelevante.

Nessa época, ainda me incomodava o fato da mãe dizer que Lindinha é a filha caçula, a maninha. Pensava no quão ridículo era ser chamada de irmã da cadela. Contudo, hoje além de me soar normal pedir para falar com ela no telefone e perguntar “cadê o neném da mana?”, acho lisonjeiro ser irmã da dona Lindinha. Ela me trouxe a companhia incondicional, o amor, a doação. Quantas noites já dormimos de conchinha, quantas tardes assistimos à TV juntas e quantas vezes ela se prostrou em frente à porta fechada do cômodo onde eu me encontrava para me acompanhar até que eu abrisse e a deixasse entrar. E depois, quando eu partia, ficava deitada no lugar onde eu havia dormido sentindo meu cheiro e me procurando.

Minha mãe diz que cachorro é um ser humano sem defeitos. O Le, quando fala da sua Preta, filosofa sobre os caninos serem uma evolução do ser humano. Eu, por minha vez, confesso que a Lindinha é a minha maior saudade da casa da minha mãe. Aquele pelo branquinho, crespinho, quentinho. Por isso, tenho a dona Vidinha. Gostaria de amar a Vida como amo a Lindinha. Todavia, esta é parecida com a dona e, para deixar de ser intragável e vingativa, terá de ser conquistada. Lindinha, por favor, me ensina a cativar alguém assim, pois quem o fez com a Bruna, há de dobrar qualquer ser sobre a Terra.

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