Sou adulta e questionável. Já passei por mais barras em 26 anos que a maioria dos mortais, e não é drama classe média de menina rebelde. Jjá chorei, já sangrei, sofri, me rasguei inteira milhares de vezes no chão de decepção, abandono ou ira. Acho que foi o Carpinejar a escrever que o pior tipo de vaidoso é o envaidecido de suas dores. Pois as minhas são as maiores, sem dúvida, de todos os meus conhecidos.

O que tanto sofrimento traz de bom? –Quase nada. Cresci, indubitavelmente, mas também fui perdendo pedaços pelo caminho, endurecendo, ficando ácida e esquecendo do meu brilho e de alguns planos mirabolantes dos quais precisamos para não deixarmos de ser especiais. Entretanto, uma das únicas coisas que tanto drama me trouxe foi um pouco de maleabilidade com os que amo. E pouco importa se me amam na mesma intensidade, eu os amo.

A minha melhor amiga insiste em não relevar uma besteira que fiz. Insiste em jogar uma década de amizade no limbo por uma coisa pequena se comparada ao que já vivemos juntas. Eu apenas respeito seu tempo e seu espaço. Ela é, como toda mulher fascinante, contraditória. Perdoa a mãe que não vale o que come, tem uma moral absolutamente duvidosa e já a deixou na mão em todas as vezes em que mais precisou porém, a mim, insiste em punir com hostilidade exacerbada.

Eu não sou perfeita, nem mesmo tenho essa ambição. Sou repleta de defeitos e isso faz parte do meu charme e da minha personalidade [também] contraditória. Mas tenho uma qualidade que me redime de qualquer das minhas falhas: eu te amo e daria qualquer coisa pra te ver bem. Eu jamais te deixaria na mão, não te darei as costas quando tu precisares, se precisares, independentemente de me desculpares ou não. Porque tu és um pedaço de mim, mesmo com críticas mordazes que só demonstram tua falta de flexibilidade. E até esta, nessas horas, eu respeito, porque te conheço e sei o quanto tu precisas provar que é melhor, mais forte, mais competente o tempo todo. Temos memória, por isso não temos paz. Nem eu, nem tu.

Da pouca coisa boa trazida pelo sofrimento, uma delas é de que não importa o quão imperfeita seja uma pessoa [afinal, ninguém jamais corresponderá a todos os seus anseios], se  te ama a ponto se doar para ti, de segurar tua mão e tu inteira quando tu caíres, eis a sua redenção. Eu não sou perfeita, Paula, contudo, eu te amo e se tu caíres [embora deseje te ver voar], minha mão, meu ombro e meu coração sempre estarão à tua espera. Porque ainda está aqui o abraço do banheiro há quase uma década guardado somente pra ti. E o resto é história porque só nós duas sabemos o significado da expressão “sobreviventes”.

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