Para a maioria das pessoas, o verão chega ali pelo dia 21 de dezembro, quando ocorre o solstício deste. Para mim, o verão chega quando mudo a temperatura do chuveiro do quente para o morno. Eu, fã de edredom, banho e chá quentes, quando giro a chave para o morno [porque banho frio comigo, não rola!] entro, oficialmente no verão.

Entro na estação das peles desnudas e dos vestidos vaporosos com uma esperança tímida, uma alegria emprestada. Um sorriso que não passa duma máscara disforme e sem encaixe. Entro no verão com um buquê de begônias na mesa da sala, tão despetaladas e murchas como meu coração. Entretanto, também sei, e como sei, que os verões me modificam, não é apenas o sol a me deixar mais leve e dourada, os risos também vêm mais facilmente.

Cresci num lugar que não tem meias estações. Ou  frio cortante ou calor insuportável, talvez por isso eu não acredite em outonos e primaveras. Vivo verões e invernos, sucessivamente. E até ontem, estava no inverno, talvez no mais rigoroso de que me lembre. Um inverno que me sugou, me cortou e me envelheceu. Um inverno que me deixou no chão, pálida e exausta. Inerte. Seca como folhas da estação. Até este inverno, eu ainda não havia amado. Eu não conhecia o frio dum amor de mão única.

Hoje mudei a temperatura do chuveiro e de mim mesma. Morna. É o início de uma recuperação, o primeiro passo em direção às tardes de sol de verão. Afinal, alguém já escreveu “alegria, é verão, outros males, amor e flores virão”. Eu não seria tão ufanista a ponto de esperar o amor nem as flores, preparo-me para os males, os tombos. Embora reconheça o quão necessário me foi o frio tremendo.

Esse inverno quase me matou, em alguns momentos, matou partes de mim que nem imaginava ter e me ensinou que, depois dele, eu ainda hei de cair algumas vezes.  Mas eu cairei de pé.

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