Para dor, eu não gosto de anestésicos, para  amores, dispenso seus eufemismos. Nunca pensei na dor das tatuagens, sempre fui tolerante à dor, quanto mais rápido isso for, mais rápido passa. Enfia logo essa agulha. Minha crueza é uma das minhas marcas. Há tempos não me reconhecia e não me sentia viva. Sabia que alguma coisa estava para acontecer [ah, essa minha intuição assustadora!].

Eu me apaixonei, perdida e avassaladoramente. Como minha mãe um dia disse que aconteceria tamanho descaso eu fazia dos que se arrastavam por amor enquanto a vida acontecia, em volta, cheia de possibilidades a qualquer desvelar de olhos.

E me apaixonei por uma possibilidade ou por uma pessoa? Mea culpa! As expectativas foram minhas. Eu superdimensionei o que não era mais que sexo barato, barato para o indivíduo em questão. Passei os últimos meses conversando com caixa postal de celular, levando bolos e sendo ignorada. Eu, logo eu, com esse ego imenso, fora preterida. Justamente o ego me impedia de enxergar por esse prisma. Eu preferia acreditar em mentiras sem pé nem cabeça que o moço inventava. Eu precisava acreditar, ser conivente para negar o óbvio.

A última delas foi ótima: “meu MSN foi hackeado por isso eu não te respondo.” Hummmmmm…e meu QI 161 se obrigava a crer pois  jamais aceitaria ser preterida. E chorava. E sofria. E lamentava. E envelhecia. E não dormia. “A tua ausência era o que me doía no calcanhar”. Perdi os últimos meses da minha vida. Estava morta e ninguém percebia, não sentia nada além de ausência. Fazia tudo no piloto automático. Não prestava realmente atenção em nada do que acontecia. Se me cortasse, não sangraria, se me cuspissem, não escorreria. Quebrei quase todos os meus copos ao lavá-los nesse tempo.

Tinha plena certeza que o pior a me acontecer seria vê-lo com alguém. Morreria. Eu morreria? Por um desses acasos, eu o vi há algumas horas. Eu os vi. Aquela mão que ele passou em volta da cintura dela me queimou inteira por dentro, tive uma vertigem em plena escada do shopping. A garganta trancou. Eu não tenho como explicar a náusea, a tontura, o susto, a tristeza. Tristeza? Não, fora de todas as minhas previsões, não derramei sequer uma lágrima. Sequei.

Cheguei em casa, mandei um e-mail para o indivíduo, pus um DVD da Ana Carolina pra rodar no volume máximo e senti vontade de viver de novo. Surpreendentemente, não poderia morrer se o visse com alguém pois morta eu já estava. Amá-lo tinha me matado. Tive minha sede de viver de volta. Logicamente, o que sentia não era felicidade mas sentia alguma coisa. Dispensei a diarista, limpei a casa, conversei com meus amigos, coisa que não tinha mais vontade de fazer, confesso.[ Era por isso que andava sumida]. Fiz mais em algumas horas que nos últimos meses.

Por fim, tomei um banho gelado. Deixei a água cair e levar pelo ralo uma parte de mim já inútil. A parte que era dele. Quero meu tempo de volta! Todo meu tempo, todos esses meses! Não fui me arrastando para academia dessa vez, fiz aula de boxe urrando, puxei ferro com sangue no olho, nem meu personal me reconhecia. Perguntava: -Que fome é essa, Bruna?

Simples, é fome de recuperar tempo perdido. Fome de sentir vontade de novo! Fome de sentir. Fome de estar de pé novamente. Fome de sentir cheiros e vento. Lembrei porque me fascina tanto  a minha personalidade.  Porque sou imprevisível. Quando a lógica seria cair, eu me levanto. Avassaladora. Destemida. Barulhenta. Forte. E sedenta de escrever para encerrar este capítulo. Creio, veementemente, em finais. Sempre melhor nas despedidas.

Enganei-me, acreditei ter encontrado o meu canalha à lá Carpinejar, o canalha reversível, charmoso e poético. Era só um galãzinho de rodoviária. Um cafajeste. Havia tanta poesia nele quanto num pára-choque de caminhão. E tanta profundidade quanto num azulejo. Entretanto, ficaram bons planos, executáveis por mim mesma. Porque hoje “eu to sozinha e tudo parece maior”…

Ah, e mãe, da próxima vez que me rogar uma praga [porque praga de mãe, pega!], em vez de desejar que eu me apaixone, respira fundo, pensa em algo mais light, quem sabe um câncer no cérebro?

E com todo o meu ser, lhes presenteio com uma expressão [brega!] banida de finais de texto. Porém, como é o desfecho duma novela barata que me levou lágrimas e tempo, me devo o registro do fechar das cortinas e do apagar desses holofotes tão erroneamente movidos durante tanto tempo:

FIM

Citações entre aspas são do DVD da Ana Carolina “Estampado”, trilha sonora deste post.

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