Esta semana, quando liguei para minha mãe, ela estava em choque. A amiga, aos 36 anos, havia falecido de um câncer fulminante [inútil essa tentativa de eufemismo para morte: falecer, fenecer, dar o último suspiro, tanto faz, para a morte não há eufemismos]. Também fiquei abalada com a notícia, pelo quão prematura me pareceu. Não acho 36 anos uma idade tão tenra, confesso, se bem vividos; não foi o caso. Se analisarmos, perceberemos que não nutrimos medo da morte em si, mas de morrermos sem termos sido, sem termos vivido tudo o que tivemos potencial para viver, receio de sermos “interrompidos”pois estamos, prepotentemente, certos de termos uma vida longa pela frente.

Sempre que a mãe me falava nessa amiga eu achava uma vida morna. Tinha-se formado em Direito há sei lá quantos anos, era sustentada pelo marido, que a lembrava do fato com certa freqüência, estudava desde a formatura para concurso público. Havia saído da tutela dos pais diretamente para a tutela do esposo, esperava para se realizar profissionalmente, para tomar conta da própria vida, para talvez ter filhos. Por isso, soou tão precoce sua morte, aos 36 anos, porque era uma vida em “stand by”.

 Embora acredite que com esses mesmos 36 ainda há muito cartucho a ser queimado, também creio que muita coisa boa já pode ter sido feita. Grande parte dos meus amigos,  se morressem com a mesma idade seria um choque, contudo não seria de tamanha lástima pois vivem até a última gota [aliás, é assim que eu escolho amigos, pela sua intensidade].  Seriam 36 com mais histórias a narrar que a maioria dos mortos aos 80. Porque são mais dispostos para a vida, não têm essa paciência de ficar dez anos esperando alguma coisa, essa inércia de viver dias iguais.

 Eu mesma, se me fosse hoje, embora não tenha realizado grande parte dos meus sonhos, teria certeza de ter aproveitado todas as oportunidades que me surgiram, de não ter me economizado. Até falta poucos itens da minha lista das “30 coisas a fazer antes dos 30”. Não me poupei do riso nem do pranto, e podem até dizer “se foi cedo demais” todavia ninguém há de dizer que não vivi.

No fim, essa amiga da mãe, embora muito bacana e de um imenso coração, passou tanto tempo esperando para então viver que, ironicamente, não teve tempo de esperar para morrer, para a doença consumi-la, foram poucos meses, super rápido. A vida, que ela teimava em levar devagar, nas coxas, acabou por levá-la num tufão, pelos tornozelos. Não há garantia de nada, há de se ter um objetivo maior sim mas também há de saber perder-se dele algumas vezes para  se encontrar as coisas mundanas, que talvez rendam as melhores histórias. E apesar delas não serem as favoritas para serem escritas, são as melhores para se contar entre amigos, são as que dão gosto à vida e ao seu protagonista.

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