janeiro/2009- Bar do Pingo

Havia quase um mês que eu não derramava sequer uma lágrima. Mas hoje, voltando da casa da minha amiga mais próxima, chorei de medo de perdê-la. Depois de quase 2 anos longe da casa dos pais, talvez ela volte para as coisas que deixou. Já fomos mais próximas mas gênios e escolhas nos mantêm a uma distância segura hoje, embora eu a ame como sempre apesar de as vezes cruzarmos os fios. Acho que, no fundo, todo mundo, um dia, vai te decepcionar, resta saber por quem as lágrimas vão valer a pena.

Fiquei até altas horas tentando achar um jeito, um apartamento, acordando corretores conhecidos para que ela ficasse e, por hora, nada me ocorreu. Hoje, no caminho de volta, eu repassava nossa trajetória juntas, os perrengues, os porres, as risadas, os malditos, de quem falamos mal por tantas horas a fio, até a sua máxima de que “os homens são todos iguais, só mudam de endereço”.

A Angelica me detestou a primeira vez que saiu comigo pois pedi uma caipirinha de saquê em plena Santa Maria da Boca do Monte [só pra minha cara mesmo!]. Eu tinha recém saído de um péssimo relacionamento, na verdade, de uma sucessão de péssimos relacionamentos que me haviam sugado a vida e estava tentando me normalizar mas, felizmente, nunca mais fui a mesma porque conheci a Gringa.

Eu era estranha para mim mesma. Foi então que surgiu a Angelica, com sua cascata loura pendendo do alto de quase 1,80m de mulher e o riso mais fácil que eu já vi. Noite após noite de um verão inesquecível, ela me deixava mais leve, mais parecida com as gurias da minha idade. Eu, que já parecia ter 40 anos. Até conhecer a Gringa, a minha vida se resumiria a uma nota de rodapé.

Numa dessas noites, a tequila me venceu, minha irmã sumiu quando a coisa ficou feia e a dona Angelica me segurou. Desde então, viramos amigas, mais que parceiras de balada. A Gringa me ensinou a rir mais, a dançar, me deu a noite de presente e o brilho da juventude que eu tinha enterrado, tão prematuramente, de volta. Já choramos juntas, já rimos, já brigamos, calamos, gritamos, cantamos com a mão pra cima e inventamos coreografias para o Bar do Pingo [saudoso!].

O pouco da minha simpatia, é um plágio descarado da que sobra na Angelica e a dela é autêntica, a minha sempre parece forçada, quase como um soluço. Não tenho talento para fazer amigos, sou crua, meio xucra, sempre atacando para me defender de algo que ainda nem veio. Ela, por sua vez, vive rodeada de gente. Ela odeia caminhar, tudo é longe quando se trata da Gringa; eu adoro perambular por aí. Ela detesta filme legendado, eu só assisto a filme legendado, mas concordamos que a melhor cerveja do mundo é a Polar de 600 ml servida no Pingo. Meu amor se talhou “pela companhia, pela discordância, pelo conviver”.

Acho que a Angelica não tem noção do quanto eu a amo, do quanto ela mudou a minha vida, do quanto ela me fez uma mulher melhor, do quanto me fez menina, da adolescência tardia com que me presenteou. Se não fosse a Gringa, eu não teria histórias para contar, eu não viveria até a última gota, não teria essa urgência de correr atrás do tempo perdido. Ela é descolada, linda, simpática, risonha; eu tento ser, às vezes, quando perto dela, e usando a sua luz, consigo.

O que talvez eu jamais tenha dito é que, de certa forma, eu nasci no canto daquele bar, naquele verão, rindo com ela. “Sozinha, a gente apenas se preserva.  A nossa existência, pra valer, só se confirma através dos outros”. Eu construí muito da minha identidade com partes do que eu mais admiro na Angelica porque ela é uma dessas pessoas raríssimas que, de tão bacanas, fazem aflorar o que há de melhor em volta também.

Eu não sei o que será de mim sem ela por perto, só de cogitar a possibilidade, parece que me arrancam um braço. Pois mesmo que não nos falemos todos os dias, eu sei que ela está a cinco quadras da minha casa, que nos veremos no fim de semana, eu sei dela e essa sensação é quente, doce, me faz mais tranqüila. Eu sei que ela está logo ali, não pra me carregar nem ser carregada, mas para andar do meu lado e ajudar a me devolver o tempo que dei aos outros e me esqueci de mim.

Novembro/2010- Wood’s

 

P.S.: as citações são da Marthinha, em “Divã”.

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