Este fim de semana tive uma grata surpresa, fui acordada para ganhar presente de natal. Não bastasse o presente, quem apertava meu interfone às 8h30 da manhã do domingo era a Juliana, a amiga-cúmplice. Lembro de acordar sobressaltada [além de ressacada], afinal interfone tocando sem ligação prévia nunca acontece. Até pensei em deixar tocar, certamente seria engano. Quem ousaria bater na minha porta sem avisar?

Infelizmente, acabamos racionalizando tudo, amigos já não se visitam sem aviso prévio, as surpresas foram extintas pela vida corrida que levamos. Lembro de quando eu era pequena e acordava ouvindo vozes masculinas na cozinha e sentindo cheiro de café. Sabia que não poderia ser meu pai pois já havia saído para o trabalho. Ficava quentinha na cama, no rigoroso inverno gaúcho tentando advinhar qual tio estava nos visitando. Chegavam assim, sem avisar, sem consultar a família como fazemos hoje em dia.

Chegavam em horário não-convencional ao nosso horário comercial estipulado, batiam na porta sem cerimônia às 7h da manhã. Às vezes até tiravam os donos da casa da cama numa naturalidade sem tamanho e ninguém se assustava, ninguém se ofendia. Era um tempo em que ainda não tínhamos transformado os amigos em problemas, não havia tantas barreiras.

Quando subia de volta com o presente na mão, pensava o quanto a visita havia sido fora dos padrões, o quanto a amizade não prescinde de cerimônias, horas marcadas, agendamento e adiantamento de assunto. Aliás, a amizade pede hospitalidade de casa de campanha, a porta sempre aberta, ter cozinha maior que a sala para receber as visitas no lugar mais quente. Falta a gente voltar a ser espontâneo para receber o que dá sabor à vida: surpresas.

Para o meu casal favorito, esta porta sempre estará aberta, é só “apear” do cavalo e se aconchegar nos pelegos da cozinha, só tragam o chimarrão porque este não sei fazer.

Anúncios