Hoje recebi uma notícia chatíssima, Vito, um dos quatro rebentos da Juliana e do Luciano, morreu há algumas horas. Dos filhos, era com quem eu mais simpatizava. Dizia inclusive que se, porventura , um dia se divorciassem,  mandassem o Vito pra mim [o Luciano jamais o faria!]. Então, eu e a Ju comentávamos o quanto ela chorou desde que ele parou de respirar e levaram-no para a clínica às pressas. Consegui mensurar o seu sofrimento quando ela disse “é como perder um filho”, aquele “como” soava tímido, meio receoso da censura pelo tamanho da dor da perda de um cão.

Aqueles que nunca tiveram um cão, julgariam um ultraje a afirmação da minha amiga, eu, por minha vez, apenas pedi para que ela não tivesse vergonha da comparação. Não era “como” perder um filho, era sim um filho perdido. Um dos presentes que a vida tinha-lhe dado  na sua ida para Porto Alegre: Vito, o cachorro que sorria; para quem lê, “apenas um cão”. “Apenas” porque a gente tem essa mania mesquinha de medir as dores por comparação: se a perda foi de uma pessoa, o direito ao luto com lágrimas e qualquer outra manifestação exterior é dado, senão, é exagero [como se todo ser humano fosse mais nobre que um cão]. Esquecemos que, na hora da dor, a última coisa de que precisamos é de julgamentos.

No fim, Ju, todos os cães vão para o céu entretanto a gente se choca e sente falta, a morte nunca é natural, de quem quer que seja. É a nossa única certeza mas quando aparece, ninguém estava esperando. Fica um poema da nossa autora favorita para confortar tua perda como mãe e do Lu como pai.

Parto sem dor

Parto do princípio que todo parto é natural

nascer de cócoras,

na água ou com fórceps

é nascimento igual

cirurgia computadorizada

ou dar à luz entre índios

todos no fim são bem-vindos

morrer é que não é normal

Martha Medeiros

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