Eu não quero morar com você. E não tem nada a ver com seu jeito de organizar [ou não] as coisas, os programas de que você gosta na TV, como deita no meu tapete ou os pelos do cachorro.Não tem a ver com você não ser ele, nem a ele eu daria o direito de me roubar de mim. Tem a ver comigo.

Todos já conhecem a minha máxima: a melhor coisa que fiz na vida foi morar sozinha. Não, eu não durmo de luz apagada às vezes e tem dias que a casa está uma bagunça. Mas é a minha bagunça, o meu silêncio ou o meu estardalhaço.

E não acredito em amar sem saber realmente quem somos, sem saber para onde vamos, ou o que podemos oferecer. Quando se ama sendo um estranho para si mesmo, acabamos por dar demais de nós [ou de menos]. Estou dando uma pausa em tudo na vida, me encontrando, e estar dentro da minha casa na minha companhia é parte determinante disso. Há um ano sou completamente feliz. Não me falta nada. Como escreveu a Marthinha: “sozinha, não há céu que me rejeite.”

Morei 26 anos da minha vida com pessoas, me adaptei a elas, a seus amigos, seus horários, seus barulhos. E creio que todos os minutos que dei a essas pessoas foram jogados no lixo. Não gosto de pessoas.

Gosto do meu barulho, de acordar a hora que me der na telha no domingo, de me esparramar na minha cama, de fúria ou de silêncio quando melhor me aprouver. Gosto de limpeza e tenho horas de bagunça. A minha bagunça.

Viver com outras pessoas fez de mim menos eu mesma, fez de mim uma girafa tentando caber numa caixa de sapatos. E só quando eu souber de fato quem sou, conseguirei respeitar minhas vontades. Não estou disposta a ceder em nada, e você já deve ter percebido. Não dependo dos outros em quase nenhum sentido e abri mão de outras coisas importantes para a maioria pela liberdade de conviver comigo.

Eu não quero você e não quero ninguém. Quero conversar as vezes [quando eu quiser], tomar um porre vez ou outra, bom sexo e é isso. Não quero disputar o controle remoto ou um lado da cama. Não quero ceder. Quero me esparramar, me atirar de calcinha [a bege, ela mesma!] no meu sofá e assistir pela nonagésima vez programa de culinária de um prato que nunca vou fazer, atender telefonemas de madrugada sem pensar se vou acordar alguém. Cedi por tempo demais, agora preciso me respeitar.

Não tenho interesse em abrir mão do meu estilo de vida, que, pela primeira vez, posso chamar de meu, sem adaptações ou concessões. Um amigo disse que precisava fugir de morar só antes de  ficar anti-social. Não fugi a tempo e não me arrependo nem por um minuto. Talvez algum dia queira voltar ao mundo, por agora, deixa me embriagar de mim mesma.

Tenho muitas mulheres dentro de mim, qualquer casa em que more já estará lotada de todas as minhas faces. E pode até ser que eu só esteja perdida, mas creia, nunca estive tão bem acompanhada.

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