A modernidade está me deixando antiquada. Em tempos de compartilhamento de informações instantâneas proporcionado pela era digital, sinto falta do charme da privacidade analógica, do telefone para convites, do luto solitário, da glória das batalhas internas, a emoção real de um beijo escondido, das coisas que se fazia apenas “da porta pra dentro”.

Na internet, há um bombardeio de informações pessoais o tempo todo. Fulano comeu algo, postou a foto; se você quer sair com alguém, não basta mais dar um telefonema diretamente para o convidado, posta o convite no mural público do fulano. Se tiver segundas intenções então, melhor ainda, porque a postagem será em tom dúbio e com direito a reticências. Está solteira? Que curtir o luto com uma amiga mais próxima, que nada, isso é um término de relacionamento muito analógico. O negócio é mudar rápido o status para que seja pública a separação e todos saibam logo “agora eu tô solteira e ninguém vai me segurar”. O término não foi amigável? – dá-lhe indireta pro fulano via página pessoal.

Amigo te decepcionou? A fila do namorado andou? Quer convidar alguém para algum programa? Está entrando na SO de toquinha na cabeça antes da anestesia? –Postagens públicas, claro. Nem mesmo de diarréia sou poupada nas redes sociais. Lembra do tempo em que nossas avós nos alertavam sobre coisas que não se comentavam? Pois é, esse conselho caiu por terra, agora tudo é público e se não é público é porque não aconteceu.

As últimas décadas foram a era da informação, entretanto a atual é a era do compartilhamento de informação. Se não é compartilhado, não existe. Se você viajou e não publicou fotos, não esteve lá. Se namora e o nome do dito cujo não está estampado na sua página pessoal, esse relacionamento não vai vingar, se é que passa de imaginação da sua cabeça. E tem quem vá mais longe, além de postar o nome do amado, reafirmam a veracidade do sentimento postando mutuamente declarações de amor eterno pela rede. É um tal de pitxuquinho pra lá, txutxuco pra cá que não interessa a ninguém contudo está lá para constar como prova de força dos laços.

E as decepções com o círculo social? Ah, essas merecem destaque com direito a farpas a quem interessar possa. A metralhadora gira desgovernadamente soltando indiretas e ficam todos se perguntando para quem o imbróglio é dirigido. Mal entendidos acontecem aos baldes nessas situações. E as postagens religiosas? É um tal de Deus pra lá, Deus pra cá, orixá acolá e sangue de Jesus não sei aonde. Nas redes sociais, as pessoas se lembram das divindades e amam “pregar a palavra”. Suponho acreditarem que quando morrerem, suas almas serão salvas de acordo com quantos curtir, compartilhar ou tweets têm citando suas crenças religiosas.Imagino a fila de cristãos desencarnados na porta do céu e São Pedro fazendo a triagem: -você entra porque citou mais de mil vezes nas suas redes sociais a palavra de Jesus, você não entra pois não divulgou online o suficiente nossas obras .

Perdemos a noção do que é público e do que deve ser privado. O romance cantado por Los Hermanos “do nosso amor, a gente é que sabe” está defasado, se fosse amor mesmo tinha declaração na página online dela, ué. Ora, “a gente é que sabe”, quando o importante mesmo é todos saberem. Defasada estou eu que ainda acredito em não dar detalhes da minha vida privada nem aos parentes, quanto mais aos milhares de “amigos” online que vc encontra raramente na vida real.

Antiquada, eu, que ainda creio em viver meu luto quieta, no meu canto, sem estardalhaços. Ultrapassada de pensar que vale mais o que ele me disse no dia que segurou minha mão e me impediu de ir embora que suas postagens na minha página do facebook. Retrógrada, eu sou quando creio que os meus sentimentos sendo só meus são genuínos e que os melhores momentos de uma vida não são compartilhados com o público, são privados, chaveados, guardados para serem contados aos netos como uma recordação de uma vida só minha. Uma vida de verdade.

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