Eu sei que desta vez a gente não vai sentar para contar as novidades, não vai ter chocolate suíço, ou perfume, ou recepção calorosa. Desta vez eu não vou abraçar teu corpo grande ou tua barba sempre por fazer. Eu sei e isso dói.  Dói porque a gente não teve a última conversa, porque não concretizamos nossos projetos juntos.

Eu sei que você está em paz, quem está no caos, sou eu. E com você, tudo era sempre tão bom, até quando era ruim, até quando estávamos estressados, esgotados, tristes, gordos, ainda era bom.

Eu sinto falta de rirmos dos outros e de você me contar do medo que tinha d’ela engravidar, que devia ter casado com a ex número 1 embora não curtisse as mesmas coisas que você, mas que relacionamento para a vida toda era assim mesmo.

Sinto falta de compartilhar nossas histórias canalhas, sinceras demais para o resto do mundo, e puras no final. Sinto falta dos teus planos, dos nossos planos, dos medos,das tuas humanidades, das risadas e do incentivo, de me ver nos teus olhos, de sentir teu cheiro e passar a mão nos teus cabelos ralos, cada vez mais raros. Me faz falta aquele teu olhar de canto, teu sorriso safado, tuas ligações no meio da noite, tuas histórias. Me faz falta você.

E eu sei que você voou em paz, eu é que não fiquei, porque você tentou me ver, eu recusei.  Recusei de pirraça, por bobagem, que como você sempre dizia, não significava nada.

E hoje, ver você em cima duma mesa, pequeno, dentro duma urna, em nada me lembrava você com os pés para fora da minha cama, ou desviando a cabeça do batente da porta do meu quarto. Você sempre foi tão grande que eu não conseguia realizar vê-lo ali dentro.

Tem umas coisas que não têm mais sentido depois que você se foi, e uma delas é a minha casa. Recordo você tentando achar comida normal na minha geladeira light, a “geladeira derrota”, como você chamava. Penso em você quebrando meu sofá, você roubando meu chuveiro antes de mim, você tentando assistir à Fórmula 1 na minha tv sem conhecer a “manha” dela, você não achando papel higiênico no meu banheiro e ele estando do seu lado. Lembro de você estreando a esponja branca, o colchão de molas, lembro de você na galinha maldita da minha estante, você na “perna de pau” que ainda está na terceira gaveta do meu roupeiro. Quero você de volta no travesseiro da Nasa, o seu favorito pra me dar conselhos e as melhores risadas que aqueles espelhos já presenciaram.

O mal da gente é achar que todo mundo é eterno! Agora nunca mais vamos conversar, rir, trocar conselhos ou falar mal dos outros. O salto vai ficar para depois, o quadro da tua sala, a viagem para o Caribe, a troca da cama para não incomodar mais teu vizinho, a parceria para ficarmos ricos, os quilos que te faltavam emagrecer, eu viajando e tantos outros mil planos.

No fim, vai ficar o que eu lembro, o que a gente lembra, o que você me ensinou sem dar lição de moral. Penso que todos precisaremos de umas décadas a mais na Terra para sermos tão leves quanto você. Leveza, eis o teu segredo… quase 130 quilos de pura leveza, e essa é a maior discrepância do mundo, mas só quem viveu com você para saber que discrepância era seu sobrenome.

Nenê, o cara mais independente que eu conheci e que não passava do nenê da dona Dina, vai voar por aí, para cima, sem muletas, em paz, sem próteses, sem dores, sem quedas e na velocidade que quiser, como a luz gigantesca que sempre foi.

Eu vou ficar aqui, com os pés na terra, tentando voar um pouco como você, que está tranquilo, já que o céu sempre foi seu lar. Aliás, quando foram te receber, certamente os anjos não te deram boas-vindas, só perguntaram porque você tinha demorado tanto para voltar para casa.

Você vai estar comigo sempre e juro que quem ouvir falar em mim, vai ouvir falar em você porque ainda quero ser tudo aquilo que só você enxergava em mim.

Eu nunca disse porque você sabia. Você nunca disse porque eu sabia.

Sempre sua, Safadeza, Jornalista, Chester e como mais quisesse chamar, eu sempre soube que era eu.

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Atualização em 12/12/2013: a revolta com os céus está passando, aos poucos. Já consigo me sentir sortuda e abençoada por você ter passado pela minha vida e me dado um pouco da sua luz, Lorpa. Tanta gente que passa pelo mundo sem a chance de ter alguém extraordinário como você por perto, só me resta agradecer e te guardar em mim. Ah, e rezar para sonhar de novo com você, quem sabe o céu se abre… Lenha!

update 24/05/2014: ainda conversamos sempre.  Ainda é meu confidente e, com fé, meu anjo da guarda. Lenha!

update 15-03-2015: sempre meu anjo da guarda e, com minha humanidade, meu confidente, PS: o quadro está na sala.

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