de-me-gastarHá algum tempo conheci uma talentosa senhora que fazia do patchwork seu hobby, particularmente, achava lindas as peças produzidas por ela, exceto a colcha, que julgava absurdamente cara e não via nada de especial na mesma. Eu pensava: isso é apenas uma colcha de retalhos, pedaços de tecidos aleatórios costurados um no outro, que nem mesmo combinam entre si.

Pois bem, se a encontrasse hoje, compraria sem barganha uma peça, porque entendi o sentido dela, entendi observando a minha vida que todos somos um pouco uma colcha de patchwork. Somos histórias aleatórias costuradas, com personagens diferentes em cada retalho formando uma peça só, nós mesmos. E meu jeito de costurar é martelar letras na tela branca, cada um junta seus pedaços de tecido à sua maneira.

Penso nos meus retalhos, no amigo querido com quem rio, choro e confidencio meus medos e vontades mesmo que não esteja no mesmo plano que eu. Do lado dele, tem um retalho lindo do namorado mais generoso que já tive, capaz de chorar minhas lágrimas de luto comigo. Mais acima, um noivo que mentiu, que resolveu viver uma bela ilusão comigo, que se julgava corajoso mas para ser feliz, fugia da sua realidade tediosa de quem odeia metade do tempo o parceiro e vivia um parêntese com uma noiva apaixonada e crédula capaz de ser doce e compreensiva com o seu teatro. Penso no primeiro namorado como um retalhinho cor-de-rosa, como a primeira florzinha que ganhei.

No fim das contas, como sou visceral, teço minha colcha com meus relacionamentos pois são eles os meus retalhos, eu sempre me deixei ser mudada pelo que havia de belo e generoso em cada um deles, deixei que se entranhassem em mim, e me costurassem de certa forma. Relacionamentos, via de regra, acabam, portanto tive finais trágicos, tive finais que não pontuei, finais que já haviam acabado antes do fim, entretanto, sempre levei comigo algo de cada um, não me deixei sair ilesa.

Não creio que as pessoas só mudem pela dor, costumo me deixar mudar por amor de forma mais flexível, sem sentir tanto o impacto. E nos finais, acabo me sentindo feliz, pois saio mais rica, afinal, plagiando a minha irmã, “uma pessoa não é feita de átomos, mas de histórias”.  Não me peça para viver pela metade, para ser cautelosa, não seria eu. Minha personalidade não me permite nunca economizar-me, eu me gasto, salto sem rede, sinto paixão até nos ossos, me entrego e isso não tem preço pois o único arrependimento que tenho é de não ter me despedido com a ternura necessária do meu anjo da guarda. Não há arrependimentos do que vivi, só do que me poupei.

De resto, bem, eu “dou check-in no chão”, choro um pouco, depois aumento o volume do som, danço sozinha na sala e retomo a vida, minha cama é grande, tem muito retalho ainda pra terminar essa colcha. Voilà!

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